– 13 – Verano Azul

Verano Azul*

Na última semana de aulas já pouco havia a fazer, em especial para quem tinha estudado pouco ao longo do ano. Os exames estavam feitos e apenas faltavam os resultados e a cerimónia de graduação. O tempo já estava quente e as noites eram enormes, às vezes pareciam mesmo não acabar.

Nas vésperas do dia de São João, dia 23 de Junho no mundo cristão, um grupo de amigos, entre os quais Maria, decidiram acolher na sua forma mais típica o dia do Santo e rumarem às primeiras horas da noite à bonita praia de o Vao.

Ficaram mesmo em frente a ilha de Torralha, para aí fazerem a sua Fogueira e expiarem doze anos de sacrifícios escolares e, quem sabe, algo mais. 

Era uma noite sem Lua envolta num enorme manto de escuridão.

Não era possível perceber onde começava a linha do mar e acabava a do céu, tornando a luz existente mais brilhante e as faces aí reflectidas bonitas portas de acesso à alma.

O grupo de amigos de Maria era constituído maioritariamente por colegas do colégio que terminavam nesse inicio de Verão um longo caminho de várias batalhas vencidas.

Mais tarde juntaram-se alguns amigos dos amigos que por sua vez iam telefonando a outros amigos que por sua vez acabavam por se juntar com mais amigos ainda. 

* Verano azul (Blue Summer) was a famous Spanish television show directed by Antonio Mercero that first aired in 1981. It tells of the adventures of a group of youngsters between ages 9 and 17, while on summer vacation in Nerja, a small town on the Mediterranean Costa del Sol, Andalusia, in Southern Spain. The series, with 19 episodes that drew up to 20 million viewers in Spain, has been re-run almost every summer since then. It has left a deep impact over several generations of viewers and has become part of Spain's common cultural memory. It was also broadcast in Latin America, Portugal, France and some Slavic countries like Yugoslavia, Bulgaria, Poland and Czechoslovakia

A roda inicial em que se sentavam era agora formada por pequenos círculos ou formas próximas disso rodando entre si garrafas de cerveja e afins depois de misturados com mestria pelos graduados do grupo, ou seja, os amigos que já estavam na universidade e que já estudavam matérias mais interessantes como a química do álcool e anatomia aplicada de primeiro ano.

Maria estava perto de Bea e Lúcia, amigas desde o tempo dos penteados de rabo de cavalo e dos pinypon, rindo das histórias de bravura que ouviam de uns quantos aprendizes de feiticeiro sentados à sua frente.

Embalados pela coragem que a Estrella Galicia oferece a todos que a procuram, fumavam e bebiam como se fossem as próprias fábricas dos Hijos de Rivera*, na Corunha.

As três amigas sabiam que aquele seria provavelmente o último verão em que estariam todas juntas, pelo menos naquela condição.

Eram mulheres e, como tal, sabiam que dali em diante existiam expectativas incontornáveis para cada uma das suas vidas.

Mas esta noite era para “salir de farra”, todos procuravam ser felizes e à sua maneira já o eram.

O entusiasmo ia crescendo ao mesmo tempo que o tom das vozes se tornava mais alto, mais descoordenado e mais honesto. 

Se alguém de fora visse as labaredas das fogueiras, diria que estavam assustadoramente descontroladas.

Um dos jovens que estava no pequeno círculo levantou-se e colocou-se em frente de Maria com um ar ameaçador, de mãos postas à volta da cintura estacou como se fosse um pilar, embora com dificuldade em ficar direito.

Desapertou o casaco que caiu rapidamente aos seus pés e lançou o pullover ao ar que por milímetros não caiu em cima da fogueira.

* Hijos de Rivera, S.A.1 is a Spanish brewery founded in 1980 in the city of A Coruña, Galicia. The main brand is Estrella Galicia, a 5.5% abv pale lager. The company’s origins date back to 1906 when José María Rivera Corral established La Estrella de Galicia brewery in the city of A Coruña.

Num acto de total ausência de sensibilidade nos membros inferiores tentou rasgar a camisa que trazia vestida gritando para que todos, incluindo ele próprio, pudessem ouvir o que tinha para dizer:

  • Maria, ouve-me bem.

 Falou tão alto que quase por magia se fez um silêncio possível.

  • Simmmm

Responderam em coro quase todas as amigas que estavam ao redor de Maria. Ela provavelmente foi a única que ficou calada.

  • Tu achas que sou um miúdo?

Paco era efectivamente um miúdo, imberbe e borbulhento.

  • Mas sou suficientemente grande para te dizer algumas coisas importantes.

Opsss! Pensou Maria à medida que o sorriso que trazia na cara há várias horas começou a ser substituído por algo um pouco mais fechado.

Paco era um dos melhores amigos do seu irmão, frequentava a sua casa e era a última pessoa de quem esperava uma declaração qualquer que fosse o conteúdo.

  • Paco, é melhor calares-te pois daqui para a frente só vais dizer mais disparates. Além do mais estás completamente bêbado.

Disse Bea que o conhecia bem

  • Maria, amo-te.

Maria era capaz de jurar que por breves segundos só se ouvia o crepitar das chamas e o meio milhão de pessoas que estava disperso ao longo praia

  • Maria – continuou Paco – casa comigo e fugimos os dois esta noite, apanhamos um comboio e vamos para França e depois damos uma volta ao mundo.

Quando somos atingidos por um raio ou por uma pedra, ou um raio de uma pedra, levamos alguns segundos a perceber o que se passou. Também Maria e os que estavam à sua volta demoraram a entrar no momento.

Maria respirou fundo e pela primeira vez em muitas horas sentiu o ar da noite que era agora mais fresco entrar-lhe pelos pulmões, mesmo a tempo de recuperar os sentidos adormecidos pelo álcool que corria de cima para baixo e de baixo para cima.

Pensou em Paco e no que tinha acabado de ouvir, estava feliz por ser desejada por um dos rapazes mais bonitos e interessantes do grupo.

Gostava da ideia de conhecer o mundo começando pela França, adorava Paris, sabia que um dia iria viver a sua vida na cidade Luz, mas não percebia a necessidade de fugir e ainda menos de se casar, mesmo que fosse com Paco.

Correu com o seu olhar as caras que estavam à sua volta como se estivesse a pedir uma ajuda silenciosa, sem encontrar resposta.

A excepção foi um olhar estranho. Não sabia quem era o nome por de trás daquela cara que, ao contrario dos restantes, sorria, ou pelo menos parecia sorrir, nas mãos tinha uma guitarra.

  • Paco olha bem para mim.

A voz de Maria era tão baixa ao ponto de todos, incluindo o rapaz que estava à sua frente em pé, terem de se debruçar e aproximar mais para poderem continuar a ouvir.

  • Vamos saltar a fogueira?

Levantou-se e tomou a mão do amigo antes que ele deixasse de o ser, ao mesmo tempo que Bea, disparou alguns acordes na guitarra Fender que estava deitada ao seu lado e começou a cantar.

Era uma daquelas músicas que poderia bem ser sinónimo de toda uma geração. Lobo hombre en Paris*

Cae la noche y amanece en Paris,

en el dia en que todo ocurrió.

como un sueño de loco sin fin

la fortuna se ha reido de ti, (e de mi)

La luna sobre Paris

Como se fosse uma onda, daquelas que se vêem na televisão nos jogos de futebol, todos se levantaram um a um e começaram a cantar, dançar e saltar à volta da fogueira.

A excepção foi aquele olhar, um dos amigos de um amigo de um outro amigo, do qual Maria não sabia sequer o nome.

Aquela cara tinha sorrido para Maria e que por acaso nem era para estar ali naquela noite.

Sentado na areia que já estava para lá de fria, José olhava com atenção o que estava a acontecer, embora detestasse sentir o rabo gelado. As emoções daquela noite compensavam outras partes do corpo, pensou que não podia concordar mais com Paco, Maria era digna de fugir com, e dar não uma mas duas voltas ao mundo.

Maria e José não chegaram a falar um com o outro na noite das fogueiras de São João na praia de o Vao, mas no momento em que os seus olhares se trocaram, nunca mais uma noite de 23 de Junho foi a mesma.

 * Spanish pop/rock band La Unión - got involved in the local scene in the early '80s. Singer Rafael Sánchez, bass player Luis Bolín, guitarist Mario Martínez, and keyboardist Iñigo Zabala hit the charts in 1984 with their song "Lobo Hombre en Paris," releasing Mil Siluetas that same year, produced by Mecano's Nacho Cano and followed by El Maldito Viento in 1985

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s