– 19 – Freedom

As fogueiras de São João na interminável noite de 23 de Junho de 1996 pareciam ter acontecido algures no século passado. Na verdade estava muito perto disso, corria o último verão bem às portas do novo milénio.

Pelo meio ficaram quatro anos sem se encontrar a justificação certa de uma viagem a um destino que não se conseguia apagar. À medida que o tempo passava, a lembrança diminuía como uma fonte que seca lentamente até parar. Não era o seu tempo. 

Maria Cortez seguiu o seu caminho universitário, ano após ano, disciplina após disciplina e rapaz atrás de rapaz, sem perceber exactamente o que é que estava a fazer. 

Faltava pouco mais de um ano para concluir os seus estudos e, ao contrário das amigas e colegas que já tinham inúmeros planos de emprego, família e afins, Maria ainda não se tinha apercebido da razão pela qual estava a estudar excepto estar porque parecia fazer sentido ser assim e todos os outros o faziam também. 

Começou a ir cada vez menos às aulas que insistiam em começar demasiado cedo tendo em conta as noites que acabavam demasiado tarde.

Noites longas acompanhadas por cigarro atrás de cigarro, onde cada novelo de fumo se parecia cada vez mais com a sua vida, maravilhosa enquanto subia no ar mas desaparecendo de imediato.

Os finais de tarde começavam no seu bar preferido – café Uf Negra Sombra – à entrada da parte antiga da cidade, reunida com o seu grupo de experimentalistas da vida, era assim que gostavam de falar de si mesmos.

As tardes entravam pela noite e a noite pela noite, longa, até saírem em grupo com os proprietários dos bares quando estes voltavam para casa aos primeiros raios da manhã.

Liam o que por lá ficava nas prateleiras, jogavam às cartas, ouviam quem tocava e bebiam, conspiravam ideologias de ocasião, jogavam xadrez e discutiam mais um pouco, liam coisas novas ou que gostavam de repetir e era assim a vida, de Maria e dos outros.

Uma das suas grandes amigas, a simpática Teresa, que conhecia toda a gente e toda a gente conhecia, fazia anos no final da primeira primavera do novo milénio.

O grupo de amigos mais próximos decidiu ser o primeiro a acolher o dia de aniversário e fazer-lhe uma surpresa.

Quando o relógio decidisse atravessar-se para lá da meia noite, iriam manter a festa em andamento até perto das 5h00 da manhã, hora que tinham combinado alugar um barco no porto que os levasse a ver o nascer do dia ao largo da Baía de Vigo.

Tudo tinha sido feito em segredo o que fazia com que uma série de olhares cúmplices corressem por entre quem estava à volta da mesa. A hora ia-se aproximando e a surpresa também.

A noite musical daquele dia tinha sido dedicada ao louco Tom Waits.

Maria pensou, ao ouvir a música que tocava, que os argumentos estavam errados, a canção estava errada, The piano has been drinking (not me), ela claramente já tinha bebido de mais, fumado de mais e, no entanto, a sua vida continuava mais ou menos na mesma, com pouco sentido excepto, claro, os serões no Negra Sombra.

Curiosamente ou talvez não, a dormência do álcool é acompanhada por momentos não raros de enorme clarividência e por difícil que possa parecer de grande sobriedade, embora seja difícil de prever se antes ou depois da dor de cabeça começar.

Este era um desses momentos na vida de Maria. 

Entre os dois cigarros que restavam no maço passou os últimos anos em perspectiva e foi fácil concluir duas coisas. 

A sua vida não estava bem, era importante mudar alguma coisa.

Tinha por hábito desde pequenina, quando se encontrava no meio de tantos pessoas, sons e cores , entrar numa espécie de autismo*.

Para os que estavam à sua volta, mantinha uma cara agradável que quase parecia sorrir, e se falassem com ela até seria capaz de emitir algum som que no fundo não queria dizer nada, mas poderia ser associado a uma típica concordância. 

Esta atitude permitia ao emissor falar por longos minutos, enquanto Maria se dedicava a observar as diferentes dimensões dos pensamentos que circulavam na sua cabeça, sem ordem alguma mas todos parte de uma mesma trama.

Quando apagou o último cigarro, decidiu tomar duas importantes resoluções, iria sair de Vigo à primeira oportunidade e não voltaria a fumar enquanto não comprasse outro maço, altura em que o charro que vinha a rodar a mesa no sentido dos ponteiros do relógio chegou até ela.

A meia-noite chegou e tal como tinham combinado colocaram-se todos à volta de Teresa a cantar os parabéns.

Maria olhou para a sua amiga e conseguiu ver dez anos mais à frente a mesma imagem, vinte anos, trinta anos e as únicas coisas que mudavam eram os brancos que cobriam o bonito cabelo da sua amiga e as pessoas que à sua volta desapareciam à medida que iam morrendo, torceu o nariz, passou o charro ao amigo que estava ao lado e concluiu que não iria fumar mais o que quer que fosse.  

Tom Waits continuava a sua luta dentro das colunas espalhadas no bar e sem grandes ajudas, se é que precisava delas, cantava uma velha canção dos anos sessenta – Sea of Love – quando Maria se lembrou que o amor ainda não lhe tinha batido à porta, ou se tinha, ela já se tinha esquecido.

* Autism is a disorder of neural development characterized by impaired social interaction and communication, and by restricted and repetitive behavior. The diagnostic criteria require that symptoms become apparent before a child is three years old

O tempo, esse malandro, quanto mais gostamos do que estamos a fazer mais depressa ele parece querer sair dali. Eram quase quatro e meia da manhã e estava na hora de seguirem para a segunda parte da festa.

Quando se preparavam para sair, cruzaram-se com um grupo grande só de rapazes, uns mais novos e outros mais velhos que acabava de entrar.

Pelo barulho que faziam, traziam uma pequena festa dentro de si, e esta não seria certamente a sua primeira estação na peregrinação daquela noite.

Olhando para um dos rapazes que andava com uma coroa de flores na cabeça, tudo lhe fazia crer estar perante uma despedida de solteiro.

Olhou melhor e viu uma chucha gigante ao peito e um cartaz nas costas que tinha escrito “Caso-me amanhã, hoje podem dar-me os beijos que quiserem”, sorriu e quase se atreveu a fazê-lo.

Por entre as muitas caras que passavam na entrada, viu uma que mais do que conhecida era uma cara desejada, desejada de longa data.

Por entre o grupo que entrava, um olhar na direcção de Maria com uma expressão, aquela mesma que tinha deixado à porta de casa à alguns anos atrás e não muito longe daquele mesmo local, estava mais velho, pensou Maria, mas mais bonito também.

  • José?

Maria tentou que as suas palavras chegassem com alguma segurança aos ouvidos do visitante inesperado.

  • Maria! Que bom encontrar-te.

Provavelmente queria ter dito bastante mais do que isso, mas o tempo, esse ladrão que se esconde entre os dias da nossa vida não o deixou ir mais longe.

  • Por Vigo? Que fazes aqui?

José olhou para o amigo que seguia na sua frente com a enorme chucha ao pescoço e esboçou um sorriso ainda maior.

  • Viemos fazer a despedida de solteiro de um grande amigo, casa amanhã em Portugal junto à fronteira. 
  • Coitado do rapaz

Maria respondeu poisando a sua mão no braço direito de José, ao que este respondeu colocando a sua mão esquerda por cima da de Maria.  

  • Sim, teve pouca sorte.

Olharam um para o outro por um segundo com uma cara séria para de seguida se desfazerem numa enorme gargalhada que acabou por se diluir com todo o barulho que os rodeava.

  • Já vais sair? Não ficas mais tempo?

José não queria acreditar que no preciso momento em que se tinha reencontrado com Maria ela iria desaparecer de seguida.

  • Estou com umas amigas e vamos fazer uma surpresa a uma delas.
  • Tens de sair?
  • Sim, alugámos um barco para nos levar até às ilhas e daqui a meia hora temos de estar lá em baixo no porto.
  • Claro, compreendo.
  • E tu ficas mais tempo?

Maria olhava fixamente para José.

Os sorrisos tinham quase desaparecido à medida que o diálogo avançava e a inevitabilidade de se separem novamente se tornava real. 

  • Gostaria muito, respondeu José, mas regressamos a Portugal dentro de umas horas. 
  • As obrigações dos que se vão casar, entendo.
  • Mas talvez possa voltar em outra altura. Comecei a minha própria empresa com uns amigos e viajo bastante.
  • Senhor empresário, parabéns, fico feliz por ti.

Maria sorriu de tal forma que o oxigénio de José começou a desaparecer devagar. Talvez fosse o calor que estava no bar. 

Talvez Maria estivesse a fazer um compasso de espera para responder, mas no entendimento de José, talvez não tivesse percebido bem o que tinha acabado de dizer.

  • Posso voltar. Insistiu Maria.

Sem ter medido as palavras elas já tinham saído. Arriscava-se a fazer uma figura bem triste, se Maria não respondesse.

Mas Maria não teve tempo para responder, Teresa tinha voltado atrás para ver onde estava a sua amiga e a pouca distância começou a chamá-la para fora. 

Uma combinação estranha de amigos levaram-nos a um inesperado reencontro. Parados e a pouca distância um do outro, ficaram imóveis, o barulho era tal que foram os olhares que falaram substituindo as palavras que teimaram em não sair.

  • Caminha comigo. As palavras nem chegaram a assumir o grau de sussurro.
  • Fica mais um pouco. Era o desejo de José.

Tal como anos antes tinha puxado o braço de José no meio da rua deserta, Maria voltou a repetir o gesto com o mesmo efeito no seu termostato. 

Sem reacção, saíram os dois lado a lado para a rua e seguiram em direcção ao Porto logo atrás do grupo de amigos onde seguia Teresa, a aniversariante.

* O termostato é um dispositivo destinado a manter constante a temperatura de um determinado sistema de regulação automática. O termostato é um instrumento que tem a função de impedir que a temperatura de determinado sistema varie além de certos limites estabelecidos.

Passadas largas entre as golfadas de ar cada vez mais fortes e frias que chegavam do mar ajudaram cada um a pensar no que é que queria dizer a seguir.

Maria sentia que este encontro não era por acaso, desejava estar com ele mas o interesse de José talvez fosse apenas igual a tantos outros que chegam e partem depois de conquistarem o primeiro beijo.

Porque é que ele nunca lhe tinha enviado uma única carta?

Teria sido apenas Maria a sentir a energia daquela noite? 

Por seu lado José procurava lembra-se e rever no seu pensamento a carta escrita e nunca enviada, não que estivesse a pensar ressuscitar o assunto, mas apenas para o caso de ele aparecer.

  • A minha vida mudou desde que nos conhecemos.

Por segundos, Maria pensou o pior, olhou rapidamente para as mãos de José e dos dez dedos que conseguiu contar, não encontrou prova ou vestígio de que a mudança tivesse passado por ali. 

  • Talvez numa próxima ocasião, gostava de falar contigo.
  • Sim, eu também.

José começou por explicar que tinha de voltar ao encontro do seu grupo de amigos. 

Em breve, teriam de estar de regresso a Viana do Castelo, no lado Português da fronteira para refrescarem o noivo que se casava às 12h00 e ele como bom padrinho que era não podia falhar.

  • Gostei muito de te encontrar aqui.

Começou por dizer José embalado pela rua íngreme que descia por debaixo dos seus pés.

  • Eu também, respondeu Maria.

Fez um compasso de espera, mas apenas para ganhar balanço e continuar o que estava a dizer.

  • Não podia ter sido uma melhor altura para te reencontrar.

José teve receio no que iria ouvir a seguir. Foram segundos aterradores. Iria Maria casar-se? Teria ele chegado demasiado tarde? Ou algo pior? Haveria algo pior?

  • Vou deixar Vigo no início de Setembro, pedi transferência para a Universidade de Santiago de Compostela e vou terminar os meus estudos lá.

Afinal não era tão dramático como inicialmente tinha chegado a pensar, embora tenha ficado a pensar na razão pela qual se tinha preocupado tanto. 

O que é que Maria fazia despertar dentro de si que lhe tinha causada tamanha aflição?

  • Santiago?

Acabou por ser a sua única resposta enquanto pensava nos efeitos que este encontro lhe estavam a provocar.

  • Mas se podes voltar a Vigo, também podes andar mais cem quilómetros para norte e visitar-me em Santiago, não podes?

A resposta de Maria fez-lhe lembrar os foguetes que são lançados nas aldeias avisando que a festa está prestes a começar.

A ideia de poder voltar a estar com Maria era o prémio maior para uma despedida de solteiro onde tudo lhe tinha parecido deprimente e triste, além do mais nunca tinha estado em Santiago de Compostela.

  • Claro que sim, respondeu com um sorriso saltando de imediato para coisas mais práticas.
  • Qual é a melhor maneira de lá chegar?

Maria, por seu lado, estava surpreendida com o entusiasmo da reacção. O seu pensamento avançou no tempo ao ponto de se imaginar com José a caminhar sob as pedras ao redor da velha catedral.

Olhou para José e, depois de um pequeno compasso de espera, sorriu e respondeu.

  • Podes fazer como os peregrinos.

José ficou a meio caminho de rir ou levar a sério a sugestão, só não fazia a mínima ideia porque é que as pessoas, os peregrinos, gostavam de andar tanto quando tinham outras formas bem mais práticas de chegar ao destino.

  • Creio que para ires de Lisboa a Santiago, e conseguires chegar em inícios de Setembro, já tens pouco tempo para começares a andar.

José continuava a pensar nos peregrinos, pessoas estranhas essas, caminharem durante semanas ou meses para depois chegarem a um sitio e irem-se embora. 

  • É melhor ires já fazer a mochila, sorria cada vez mais Maria.

Prosseguiu aproveitando-se de um José meio surpreendido com o que ouvia e com os seus próprios pensamentos.

Não era, nem nunca tinha sido muito bom em geografia ou orientação, mas assim de repente percebeu que tinha uns bons seiscentos quilómetros a separar as duas cidades. 

  • Sim, era capaz de o fazer, mas preciso de saber mais sobre esta peregrinação, replicou José.
  • Em alternativa, se vieres de autocarro até Valença, podes sempre atravessar a pé a velha ponte de ferro e depois do lado Espanhol em Tui apanhar o comboio até Santiago.
  • Vou ver a melhor forma. Falaremos em breve.

Desta vez, lembrando-se do que se tinha passado dois anos antes, José fez questão de anotar bem os números de telefone assim como reforçar a promessa de se verem em breve em Santiago.

A conversa foi interrompida com um grito saído do grupo que seguia na sua frente.

  • Maria, anda depressa, temos o barco à tua espera.

Olharam um para o outro e naquele momento perceberam que apenas poderiam desejar que o tempo voasse depressa, deram um abraço apertado para não deixar espaço a que a saudade triunfasse naquele momento e seguiram em direcções opostas.

Antes das 6h00 já o barco estava a meio caminho do porto de Vigo para as Islas Cies quando os primeiros raios de luz apareceram por trás dos montes que circundam a cidade em redor da baía.

A não muitos quilómetros de distância, alguns carros com matrícula portuguesa tentavam manter as rodas direitas na estrada que atravessava a fronteira rumo a Valença. 

No Barco o barulho que acompanhava a comitiva de festas tinha sido substituído pelo silêncio do horizonte e um pequeno rádio que o marinheiro contratado para a surpresa tinha colocado na coberta.

Tocava um som típico da rádio pirata Universitária que, por acaso ou não, se chamava a hora do Pirata.

Àquela hora da manhã, para quem estivesse acordado, o prazer era sempre redobrado, A night @ Budha Bar Hotel, provavelmente porque também o DJ olhava para a linha do horizonte. 

Apenas duas palavras se repetiam ao longo dos minutos, Freedom & Spirit.

Na auto-estrada, num dos carros, todos dormiam, à excepção do condutor que embora não fosse o dono do carro era o único que estava em condições de levá-lo de volta ao destino.

A música que tocava no auto-rádio sintonizava um sinal que iria desaparecer assim que passasse a fronteira.

Durante vários minutos apenas duas palavras se repetiram.

Freedom & Spirit.

Maria e Teresa seguiam lado a lado bem na frente do barco, cozendo os buracos do tempo das suas histórias recentes até não haver muito mais a dizer. 

O vento discutia com as velas do barco o melhor caminho de volta ao Porto e Maria preparava-se para partir. Setembro já estava no horizonte.

Ao descer a auto-estrada do Atlântico, José recuperou mentalmente as últimas horas daquele dia, tentava perceber quando é que poderia voltar à Galiza, ou melhor, voltar a Maria. Por ela seria capaz de ir até ao fim do mundo, onde quer que esse fim estivesse.

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