– 21 – O guarda copos

Desde Agosto daquele final de século tinha tentado convencer os seus dois sócios que o futuro do negócio digital estava na internacionalização, mais concretamente em Espanha e se possível onde os Portugueses fossem olhados como iguais. 

Como nenhum deles estava interessado em deixar de fazer o que tinham em mãos em Lisboa, acabou por ser José a ficar responsável pelo processo.

Sem grande espanto, pelo menos para ele, acabou por identificar um número interessante de possíveis contactos para reuniões no norte de Portugal.

Empurrava um sonho que por sua vez puxava outro.

Fiel ao que parecia ser uma vocação Universalista tardia, José andava de terra em terra apregoando os benefícios milagrosos para as empresas em se juntarem ao grupo cada vez maior de quem queria estar presente no ciberespaço e comunicar com o mundo através da sua página na internet.

Estávamos em 1999, não o espaço*, mas algo ainda assim electrizante de se viver. José, os seus sócios e amigos viviam um verdadeiro conto de ficção científica, que muitas vezes lhes colocou em cima uma verdadeira pele de extraterrestres.

Tinham sido os bits, o HTML e o Flash, o TCP/IP e os domínios .com a proporcionar a si e ao seu amigo Miguel, sócio na empresa de internet criada um ano antes, subir até ao Minho e depois um pouco mais a Norte até Santiago de Compostela. 

* Space: 1999 is a British science-fiction television series that ran for two seasons and originally aired from 1975 to 1977.
Space: 1999 centres on the plight of the inhabitants of Moonbase Alpha, Earth's Space Research Centre on the Moon, following a scientific cataclysm, on 13 September 1999, detonates in a massive thermonuclear explosion.

The force of the blast propels the Moon like an enormous booster rocket, hurling it out of Earth orbit and into deep space at colossal speed. During their interstellar journey, the Alphans encounter an array of alien civilizations, dystopian societies, and mind-bending phenomena previously unseen by humanity.

Em inícios de Outubro o vento frio disputava a atenção de José e Miguel à medida que a chuva mais tímida do que o normal tocava no pára-brisas do carro emprestado pelo Pai do segundo.

De quando em vez abriam as janelas para refrescarem o ar dentro da Citroën Berlingo, que mesmo tendo para cima de cinco anos, pouco mais de 10 mil quilómetros tinha.

As reuniões seguiam-se umas atrás das outras a um ritmo tanto alucinante como o teor das conversas que traziam para cima da mesa dos anfitriões. 

Já na antiguidade os primeiros cristãos sabiam que não era fácil evangelizar, após conversarem durante dias inteiros com os interlocutores mais improváveis do Portugal profundo, tinham comprovado essa mesma experiência.

Era impossível esquecer-se da secretária de direcção de uma fábrica de móveis à entrada da cidade do Porto, que ficava muito feliz quando via chegarem os “meninos da internet”. 

Um dia chamou-os à parte para lhe ajudarem a resolver um problema gravíssimo.

Ao que parece, tinha tirado momentaneamente um dos cds de música do patrão quando este estava de férias no Brasil com uma sobrinha, que ninguém sabia muito bem de quem é que ela era filha, quando algo verdadeiramente assombroso aconteceu, nas suas próprias palavras. 

Ao abrir o guarda copos** do computador o dito cd de música que ela queria muito ouvir acabou por desaparecer no vácuo, nunca mais tendo regressado. O patrão voltaria dentro de dois dias e ela estava muito nervosa.

* Evangelizar - Em grego, o verbo é utilizado para resumir a expressão «anunciar boas notícias»: alguém que é «evangelizado» é, basicamente, alguém a quem «foi dado a conhecer». Pode ser usado para anunciar um nascimento, um armistício ou um novo líder. Não tem, por si só, um significado religioso.

** A unidade de entrada dos cd-roms nos primeiros desktops comerciais foi muitas vezes confundida com um verdadeiro 2 em 1, permitia ouvir música e quando aberto poisar copos.

Os meninos da internet lá resolveram o problema, embora ao que conste o patrão não chegou a regressar do Brasil.

Ou então da reunião que agendaram no solar do Alvarinho em Melgaço, já muito próximo da fronteira com a Galiza.

Tendo sido recebidos na sala de provas do Edifício dos três Arcos por uma simpática funcionária da câmara que para além de lhes ter explicado o que desejava ver na página de internet os presenteou com algumas iguarias da região e um Alvarinho de honra. 

Duas horas e duas garrafas depois, a simpática funcionária era no mínimo comparável a Gisele Bundchen*, Miguel e José tiveram de “fugir”, mal sabendo onde colocar os pés, visto que o chão tinha tendência a mover-se a cada passada.

No carro, a única forma de acalmarem o estado de euforia em que se encontravam, foi com música, música que naquele final de século era o combustível da sociedade possível.

 

I know I know for sure*

That life is beautiful around the world

I know I know it’s you

You say hello and then I say I do

Where you want to go

Who you want to be

What you want to do

Just come with me

Depois de 72 horas alucinantes, atravessaram a fronteira rumo ao norte. Ainda havia tempo para mais uma reunião agora no lado de lá da fronteira, uma estreia para os jovens empresários.

* Gisele Caroline Bündchen - born 20 July 1980 is a Brazilian fashion model. In the late 1990s, Bündchen became the first in a wave of Brazilian models to find international success.
** Red Hot Chili Peppers are an American funk rock band formed in Los Angeles in 1983. The group's musical style primarily consists of rock with an emphasis on funk, as well as elements from other genres such as punk rock and psychedelic rock. When played live, their music incorporates many aspects of jam band due to the improvised nature of much of their performances. Red Hot Chili Peppers have won seven Grammy Awards, and have become one of the best-selling bands of all time, selling over 80 million records worldwide.

Cada vez que abriam a janela para fumarem mais um cigarro, evitando que o Sr. Polícia mais tarde viesse a descobrir, o ar ficava mais frio na medida em que a distância para Santiago era cada vez menor. 

Tinham-se passado pouco mais de três meses desde que José e Maria se tinham voltado a encontrar, quando participara na despedida de solteiro de um amigo em Vigo. Nessa altura cruzara-se com Maria no mesmo bar em que o seu grupo de amigos tinha decidido terminar a noite.

A amiga tinha-se transferido da Universidade de Vigo para a de Santiago no início do semestre e José estava desejoso de a reencontrar. 

Desde o verão que falavam ao telefone quase todas as semanas, uma espécie de correio dos velhos tempos, mas muito mais rápido e mais cómodo, apenas interrompido, geralmente depois da primeira hora ter passado, quando as irmãs de Maria ameaçavam desligar a ficha da tomada.

Sem ninguém pelo meio a interromper, cada troca de palavras encaixava como peças de um puzzle que ia sendo preenchido na fotografia maior das suas vidas.

Desde o reencontro em Vigo, que o seu único pensamento era voltar a estar com Maria e para tal precisava de encontrar uma justificação, em primeiro lugar para si e depois para os seus sócios.

Sabia que ela partilhava um espaço com algumas colegas de Universidade e que isso lhe permitia juntar o melhor de dois mundos. 

Não tinha de esticar o seu já curto budget e simultaneamente encontrar a desculpa perfeita para estar mais perto de Maria, sem que ninguém, incluindo ele próprio, se apercebesse da verdadeira razão da sua visita.

Nada como o trabalho para justificar tudo, ou pelo menos quase tudo, um argumento que não necessitava de explicações, toda a gente sabia que o trabalho é importante.

Era uma quinta-feira e estavam muito longe de casa, José e Miguel tinham concordado em ficar aquela noite em Santiago de Compostela, José podia rever uma amiga e eles iriam oferecer a si próprios um dia de descanço, sentiam que seria bem merecido.

Terminada a última reunião de trabalho na zona industrial de O Porrino, terra com um nome fantástico que sempre fazia José rir, pois pensava sempre que era a capital dos Porros*, já não havia nada que o separasse de Maria.

 

*Porro es un término popular que en varios países hispanohablantes se le da a un cigarrillo de cannabis o hachís

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