– 24 – A menina dança ?

Após a partida de Miguel ainda antes do meio dia, José saiu do apartamento e passou boa parte da tarde sozinho a andar pela parte antiga da cidade, enquanto Maria estava na Universidade.

Utilizou a melhor técnica para se descobrir algo que se não conhece: Vagueou, perdendo-se propositadamente sempre que uma pequena rua lhe parecia menos óbvia.

Foram horas caminhando por cima de pedras de calçada tão antigas como a memória do tempo, tentando apreciar o que tinha à sua volta. 

Por cada minuto que passava, pensava na chegada da noite, pensava no que queria dizer a Maria quando estivessem juntos e na melhor forma de o fazer se estivesse à frente das suas amigas e amigos. 

Gostaria de sair só com ela, caminhar por aquelas mesmas ruas, gostaria que ela lhe mostrasse os seus locais preferidos e risse consigo.

Depois de várias voltas, acabou por se encontrar na Praza de Obradoiro*, caminhou até ao centro da Praça, virou-se e ali à sua frente, com mais de 70m de altura, vivia a catedral de Santiago.

Do que se lembrava de ter lido, depois de ouvir os comentários de Maria sobre os peregrinos, a Catedral teria sido várias vezes construída para logo depois ser destruída e pouco depois novamente reconstruída, enfim, um clássico na história da humanidade.

Voltou ao apartamento de Maria perto das 19h00. Tinham combinado sair todos para jantar e embora não quisesse dar a entender que era uma noite única e especial, queria aparecer com a sua melhor roupa e parecer que tinha acabado de chegar da rua.

Não tinha memória de alguma vez uma rapariga o ter feito sentir tão nervoso. Era estranho, mas simultaneamente uma óptima sensação.

* A Praça do Obradoiro é a principal e mais famosa da cidade de Santiago de Compostela, capital da Galiza. Nela destacam-se edifícios emblemáticos como o Paço de Raxoi, o Hostal dos Reis Católicos e a própria Catedral de Santiago de Compostela.

A porta de entrada da rua estava aberta e subiu até ao 5º piso. Quando ia bater à porta, percebeu pelas vozes que falavam por trás da mesma que já estava alguém em casa. 

Ao entrar, para além das duas colegas de piso, Chiara e Letizia, estava também um amigo chamado, Sancho*, embora neste caso fosse bastante magrinho, logo, sem pança.

Percebeu que tinha vindo interromper um daqueles momentos que apenas as mulheres conseguem verdadeiramente compreender. 

Corriam do quarto para a casa de banho e novamente para o quarto entre sorrisos e gritinhos cada vez que apareciam com uma roupa diferente ou experimentavam uns sapatos com outra cor, ou então colocavam algo que só mesmo elas poderiam ver. Confessou para si mesmo que tudo lhe parecia um pouco igual. Estavam todas giras e pronto. 

Sentou-se no sofá da sala, que ficava entre um dos quartos e a casa de banho enquanto fazia de conta que lia algo interessante e que supostamente lhe fazia mergulhar a atenção entre as páginas. 

A tentativa estava no entanto condenada ao fracasso tendo em conta a quantidade de pernas, collants e decotes do tamanho da sua imaginação que teimavam em passar em frente à sua visão periférica.

Só não percebeu porque é que o Sancho “sem pança” podia estar com elas naquele final de tarde entre mudas de roupa e a ele apenas lhe disseram para esperar na sala. Life is not fair, pensou. 

Como é tradicional em Espanha, já passava das 21h30 quando sairam para jantar. José estava com uma fome capaz de produzir visões. 

Na verdade não eram visões, eram três lindas mulheres que caminhavam à sua volta pelas ruas de Santiago que, fazendo-o sentir como um actor de cinema a caminho de uma Premiere, só faltava mesmo a carpete vermelha. Mas enfim não se pode ter tudo.

* Sancho Pança (em castelhano Sancho Pannizaa) é uma personagem do livro Don Quixote de la Mancha, conhecido apenas como Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Actua como um personagem contraste ao personagem principal, o próprio Dom Quixote. Enquanto Quixote é sonho, é fantasia, Sancho é realista. Na medida em que o relato avança, Sancho, aos poucos, vai aceitando os "delírios" do cavaleiro de quem é o fiel escudeiro. Finalmente, não se pode pensar em Dom Quixote, sem ter junto o notável e comilão Sancho Pança.

O primeiro erro da noite, foi a primeira bebida, mais a segunda, a terceira e as outras, antes mesmo da comida aterrar na mesa. Quando esta chegou já o seu cérebro tinha partido para parte incerta. 

Maria estava absolutamente deslumbrante, os seus cabelos ruivos compridos caídos pelas costas e a sua pele absolutamente branca salpicada por fantásticas sardas ruivas. 

Talvez por ser a rapariga que fazia anos, parecia brilhar no meio de tanta confusão. O próprio barulho de fundo ficou cada vez mais fundo. Quanto a José, levitava nos seus próprios pensamentos.

Enquanto lutava por se manter em pé, tentou algumas vezes chegar à fala com Maria, mas a porra da língua espanhola é tramada, especialmente quando se tem a língua enrolada numa dezena de Estrella Galicia*.

A distância entre pensar num idioma e falar em outro é quase a mesma de se ir até à lua, e José naquela noite não tinha nenhuma nave espacial. 

Finalmente, conseguiu colocar os dois pés no chão em posição paralela o que lhe permitia caminhar em frente sem cair. 

Passo a passo, foi até ao centro do bar que naquele momento mais parecia uma pista de dança. À medida que a noite avançava, foram-se retirando as mesas e cadeiras e ficaram apenas as pessoas que estavam a jantar, mais umas mil que entretanto foram entrando.

Maria, ao ver José caminhar na sua direcção, olhou de volta com mais atenção. Assim que os olhares se tocaram fez um sorriso daqueles, fazendo um gesto com a mão para a acompanhar na música que começava.

Respirou fundo, abriu os braços para a abraçar, pelo menos assim teria a certeza que não caía antes mesmo de começar o exercício.

Um passo mais, e era capaz de jurar que alguém lhe tinha pregado uma rasteira.

* Estrella Galicia is a brand of pale lager owned and produced by Hijos de Rivera.

A música era certamente bastante mais ritmada do que aquilo que José estava a tentar fazer. A sua cara ficou colada na cara de Maria, logo ao primeiro passo de dança.

Procurou colar os seus lábios no ouvido de Maria. Estava de tal maneira em outra dimensão que não tinha a mínima preocupação sobre o que ela ou alguém à sua volta iria pensar. 

  • Parabéns 

Terá dito com mais volume do que o necessário… 

  • Gosto muito que estejas aqui comigo – respondeu Maria alguns decibéis bastante mais baixos.
  • Eu também, embora não saiba muito bem onde esteja neste momento.

Largou uma gargalhada que só poderia ter sido lançada boca fora com a ajuda da quantidade de álcool que havia dentro do seu estômago, veias e devidas ramificações. 

Maria não respondeu, passou-lhe a mão pela nuca e puxou-lhe a cabeça mais para o lado até José ficar de frente para ela. 

Provavelmente se naquele momento tivesse dito algo não teria conseguido ouvir.

Pensou que deveria beijá-la naquele preciso momento, os olhos estavam dentro um do outro e como não sentia algumas partes do corpo achou que estava a voar baixinho, e como ao voar existem regras próprias, seria aquele o momento.

Poderia ter sido um camião TIR numa qualquer auto-estrada, vindo por de trás ou mesmo saltando o separador central da faixa contrária, mas neste caso foi mesmo o Sancho sem Pança que chegou pelo lado direito. 

Sem fazer sinal de luzes apalpou a nádega esquerda de José e este ao virar-se na mesma direcção perdeu o centro e o equilíbrio do que estava a fazer antes. 

Sancho agarrou os dois braços de Maria e num passe de mágica começou a dançar com ela ao ritmo dos sons que saiam das colunas.

José por seu lado tentava perceber o que mais lhe tinha atrapalhado, se o roubo da mulher que estava à sua frente e por segundos prestes a ser beijada se o seu pudor de macho latino acabado de ser apalpado.

Antes do final da noite viria a perceber que não era um concorrente aos seus objectivos. 

Estava confundido, a única coisa que queria era sair daquela confusão. O desequilíbrio era medonho. Arrastou-se devagar e conseguiu chegar até ao bar. 

Ao aproximar-se do balcão ouviu alguém a falar inglês, o que o obrigou a parar e tentar sintonizar agora algo completamente diferente.

  • Hi,

Disse José num americano quase perfeito. 

  • Hello stranger.

Foi a resposta, fazendo-o recuperar a compostura depois da vergonha que tinha sentido segundos antes. Abriu bem os olhos preparando-se para responder. 

  • Are you with the birthday party?

Foi a melhor coisa que conseguiu dizer depois de perceber que estava a falar com uma rapariga linda, ou pelo menos que parecia ser linda. 

À noite “All cats are grey” algo que Thomas Lodge já sabia em 1596 quando escreveu um livro chamado – Margarite of America. Será que ela se chamava Margarite ? 

  • Depends, why do you ask?

Novamente a resposta obrigou-o ainda mais a pedir à sua cabeça que voltasse rapidamente a juntar-se ao resto do corpo.

  • Because I am in love with the birthday girl and dont want to make a fool out of myself in front of her friends.

Uma vez mais poderia ser o álcool a falar por José, pois aquele tipo de honestidade não era comum entre adultos, a não ser que não se conhecessem bem ou estivessem cheios de ethanol*.

  • Dont worry you already did, now it can only get better.

Se José fosse uma equipa de futebol a jogar a final da liga dos campeões, era como se estivesse a perder ao intervalo e sofresse um golo logo no início da segunda parte. Estava em desvantagem mas ainda tinha 45 minutos pela frente, o importante era não se deixar ir abaixo. 

  • Do you see that redhead beauty dancing with a character from Hair** the musical ? 

José fazia a pergunta apontando para o magote de gente que dançava na sua frente.

  • You mean, Sancho?

A resposta era obtusa, mas ao mesmo tempo interessante. Como é que ela conhecia aquele ladrão?

  • Yes, that one, with the jungle on top of is brain, if he has brains there. 
* Ethanol, also called ethyl alcohol, pure alcohol, grain alcohol, or drinking alcohol, is a volatile, flammable, colorless liquid. It is a psychoactive drug and one of the oldest recreational drugs. Best known as the type of alcohol found in alcoholic beverages, it is also used in thermometers, as a solvent, and as a fuel.

** Hair: The American Tribal Love-Rock Musical is a rock musical with a book and lyrics by James Rado and Gerome Ragni and music by Galt MacDermotA product of the hippie counter-culture and sexual revolution of the 1960s, several of its songs became anthems of the anti-Vietnam War peace movement. The musical's profanity, its depiction of the use of illegal drugs, its treatment of sexuality, its irreverence for the American flag, and its nude scene caused much comment and controversy.

Hair tells the story of the "tribe", a group of politically active, long-haired hippies of the "Age of Aquarius" living a bohemian life in New York City and fighting against conscription into the Vietnam War

Tentou ter alguma graça, mas pelos vistos não se tinha saído nada bem. A rapariga na sua frente olhava seriamente.

  • Do not worry with Sancho, he is in my literature class, a good friend and totally gay, he will not harm the birthday girl. 

Dito isto, virou-lhe as costas e José acabou por ficar literalmente a falar sozinho.

O melhor era não tentar mexer-se muito mais. Encontrou uma posição confortável recostada ao balcão e, usufruindo da dormência mental em que chapinhavam os seus pensamentos, pediu um cigarro a quem estava próximo e ficou entretido a ver os novelos de fumo rumarem até ao tecto.

Saíram da festa já era dia, percorrendo uma boa parte do trajecto até casa cantando o reportório que cada um sabia. Quando não sabiam, inventavam. 

Mesmo sem ter conseguido estar tão próximo de Maria como tinha desejado, estar ali, já era uma sensação fantástica, das melhores coisas que tinha na sua memória, como se todas as suas vidas pudessem caber dentro daquelas canções. Na verdade cabiam.

O ar fresco da manhã fazia promessas de uma mão cheia de oportunidades para quem tivesse a coragem de abrir o dia que estava prestes a começar. 

Calaram-se depois de saborear umas belas bolas com creme de uma pastelaria que tinha acabado de abrir as suas portas, sentiam-se mais mortos do que vivos. Era preciso recuperar as energias. 

Chegaram a casa enquanto a loja de brinquedos que ficava ao lado da entrada abria os estores. Àquela hora já não havia forças para brincar. Depositaram os restos mortais sem sequer puxar os cobertores e sem dizer muitas palavras. 

Com as persianas recolhidas, não havia forma de perceber o que é que o mundo estava a fazer lá fora. Honestamente, isso também não era relevante.

José acordou já passavam das 15h00, com aquele sabor dentro da boca de quem perdeu a conta do que se bebeu e uma dormência no cérebro muito para além do desejável. 

Conseguiu pensar em abrir os olhos, o que na verdade era um feito, mas nem se atreveu a fazê-lo em simultâneo. 

Pelo canto do olho, vi um bilhete manuscrito colocado em cima do relógio despertador. Com esforço, pediu ao seu braço esquerdo para se esticar e pegar no papel e com alguma dificuldade leu o que estava escrito.

– Querido José, espero que te tenhas divertido ontem á noite, mas ainda temos uma dança para terminar.

Volto perto das 18h30. Podemos ir jantar. Descansa. 

– Bicos*….Maria

 

*Bico –No caso em questão, creio ter sido uma referência ao ponto 4 (latim beccus, -i, bico, especialmente o do galo) s. m.

Parte córnea que remata a boca das aves (e também de alguns peixes, ex.: bico do peixe-agulha).

[Por extensão]  Ave doméstica.

[Figurado]  Boca.

[Figurado]  Beijo.

Extremidade saliente ou aguçada de alguns objectos... = PONTA

Aparo para escrever.

Extremidade de um queimador de gás (ex.: um dos bicos do fogão está entupido).

Dívida insignificante.

[Informal]  Princípio de bebedeira.

[Informal]  Pessoa que gosta de beber vinho.

[Informal]  Serviço remunerado que se faz para além do emprego habitual (ex.: o cunhado é mecânico e faz uns bicos de vez em quando). = BISCATE

[Calão]  O mesmo que felação.

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