– 25 – Paris/Dakar

Subiu os três degraus que separavam a plataforma do comboio que tinha acabado de chegar na linha 2, e ao abrir a porta da composição sentiu o ar quente do ar condicionado tocar-lhe na cara. 

Procurou um lugar para se sentar, o que não tendo acontecido não teria sido problema. Na carruagem inteira era o único passageiro. 

Poucos minutos depois, as casas de pedra e a igreja de São Bartolomeu ficavam lentamente para trás, estavam em marcha em direcção a Vigo, primeiro, e depois para Santiago de Compostela. 

Ainda pensou em recuperar o ponto onde tinha deixado de ler. Tinha na mão o fio da navalha*, mas era impossível fazê-lo. As suas fantasias eram alimentadas pela noite que tinha passado com Maria após o aniversário desta.

Lembrava-se que ao acordar e depois de ter visto o bilhete deixado perto do despertador tinha a noção de que as suas vidas mudariam para sempre, e mudaram.

Quando Maria voltou ao final da tarde, José já estava pronto provavelmente há mais de duas horas, sentado na pequena mesa redonda perdida no meio da sala, tal como ele.

Ali estavam os dois, frente a frente rodeados por um silêncio ensurdecedor. Se alguém se tivesse aproximado do peito de José, ouviria o seu coração, qual tambor de guerra, procurando perceber onde estava o inimigo, se à sua frente se dentro de si.

* Fio da navalha - The Razor's Edge is a book by W. Somerset Maugham published in 1944. Its epigraph reads, "The sharp edge of a razor is difficult to pass over; thus the wise say the path to Salvation is hard," taken from a verse in the Katha-Upanishad.

The Razor's Edge tells the story of Larry Darrell, an American pilot traumatised by his experiences in World War I, who sets off in search of some transcendent meaning in his life. The story begins through the eyes of Larry's friends and acquaintances as they witness his personality change after the War. His rejection of conventional life and search for meaningful experience allows him to thrive while the more materialistic characters suffer reversals of fortune. The book was twice adapted into film, first in 1946 starring Tyrone Power and Gene Tierney, and Herbert Marshall as Maugham and Anne Baxter as Sophie, and then a 1984 adaptation starring Bill Murray.

Saíram para jantar caminhando em redor do “Casco Antiguo” , ruas que nenhum arquitecto à excepção do tempo poderia desenhar. Um passo de cada vez foi a forma como a conversa se desenvolveu. 

Era um prazer sem precedentes estar ali, juntos, caminhando lado a lado, descobrindo naquele antigo caminho novos e surpreendentes caminhos dentro de cada um. 

Do trabalho de José aos estudos de Maria, passaram à música que lhes dava imenso prazer em falar. Por ser algo tão natural nas suas vidas, era quase como respirar. 

Nos minutos intercalados pelos olhares, José conseguiu explicar como o tempo tinha corrido penteando os últimos anos de encontros e desencontros. 

As referências sucediam-se e sentiam o interesse um pelo outro crescer , à medida que os passos avançavam e a noite engolia a cidade, Maria ia ficando cada vez mais bonita.

Pararam na entrada do que parecia ser o restaurante para jantar. Tinha um letreiro estranho por cima da porta onde se podia ler sem problemas – Paris –

– Adoro Paris!

Disse Maria colocando a sua mão no puxador da entrada.

  • Um dia irei viver lá.

José sorriu e pensou na única vez que tinha estado em Paris, junto com os seus Pais. Na verdade tinha sido a última viagem que tinham feito os três juntos. 

O tempo que tinha passado na cidade tinha sido tão curto que não lhe permitia emitir nenhuma opinião sobre o assunto mas, ainda assim, disse antes de entrarem no restaurante. 

  • Vamos conhecer-nos melhor em Paris?

Abriu a porta do restaurante com uma mão, fazendo um gesto com a outra para que Maria passasse à sua frente. 

Entraram e estava bastante mais quente do que fora. Tiraram os cachecóis , os casacos e, sem poder evitar, José reparou como eram bonitos os seios de Maria.

Provavelmente por se ter demorado mais alguns milésimos de segundo no olhar, era óbvio que ela tinha notado o seu ar de surpresa e simultaneamente de desejo.

Quando os olhares se voltaram a cruzar, não encontrou embaraço ou mesmo reprovação. Pelo contrário, o sorriso de Maria emoldurou o pequeno silêncio entre eles, tornando-o num dos primeiros momentos de ouro das suas vidas. 

Sem nada melhor para ultrapassar a situação, José voltou para uma zona de conforto e perguntou.

  • Como é viver e estudar em Santiago de Compostela? 
  • É bom, há uma energia especial nesta cidade, existe sempre algo a acontecer, e quando não são estudantes são peregrinos.

Depois de ter feito uma pequena pausa, como que se as palavras fossem um bem escasso que era importante preservar, acrescentou. 

  • É a energia que vem da velha Catedral. As suas pedras milenares falam em silêncio para quem as quer escutar.

O que sempre lhe tinha desconcertado em Maria eram as suas tiradas de sabedoria imprópria para quem não tinha mais de vinte e poucos anos. Ficava louco de paixão e só desejava mais.

Da música passaram a Deus e de Deus ao Amor*, voltaram a Espanha e seguiram em direcção ao que pensavam um sobre o outro desde o dia em que se tinham conhecido nas famosas fogueiras de San Xoan.

* A palavra amor (do latim amor) presta-se a múltiplos significados na língua portuguesa. Pode significar afeição, compaixão, misericórdia, ou ainda, inclinação, atracção, apetite, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido, etc. O conceito mais popular de amor envolve, de modo geral, a formação de um vínculo emocional com alguém, ou com algum objecto que seja capaz de receber este comportamento amoroso e enviar os estímulos sensoriais e psicológicos necessários para a sua manutenção e motivação. É tido por muitos como a maior de todas as conquistas do ser.

Os olhos já não faziam esforço algum em evitarem-se, estacionados uns nos outros continuaram lado a lado até as suas almas se começarem a tocar. 

Nesse trajecto até à sobremesa, tinham já feito inúmeras “viagens” sem que, falando directamente de sentimentos, fosse possível mostrar o que cada um sentia.

José tocou por engano nos dedos de Maria, ou talvez não, e de seguida voltou a fazer o mesmo movimento acabando por lhe agarrar a mão. 

– Conheces o muro do amor, em Paris?

Maria olhava fixamente os olhos de José. Não era uma pergunta, era uma porta para uma dimensão desconhecida que se abria diante de si. 

O pensamento livre da coerência que estes momentos costumam exigir ficou a milímetros de arriscar a tirada de que o único muro que conhecia era o de Berlim, mas esse já tinha caído. Felizmente a boca ficou fechada.

– Se algum dia me perderes é lá que me podes encontrar.

Maria olhava fixamente para José.

– Não te esqueces disso?

Não foi capaz de dizer nada, nem ela tão pouco. No entanto, primeiro com força e depois apenas com carinho, deixou a sua mão continuar a segurar na de Maria.

Lentamente em movimentos circulares começou a massajar com o seu polegar a palma da sua mão, e foi assim que em silêncio lhe disse que ela era o seu futuro, o seu passado e porque o Universo sussurrava o seu nome, o maior presente.

Sem necessidade de traduções ou interpretações, a noite ficou maior e o restaurante onde estavam o local mais pequeno do mundo.

Sem lugar para mais do que duas pessoas e um punhado de oxigénio, pediram a conta, pagaram e saíram de volta para as ruas milenares. Tinham acabado de entrar para a história dos caminhos de Santiago.

Continuaram em silêncio, mão na mão em direcção ao apartamento de Maria que ficava na rua Rosalía de Castro*, mítica poetisa galega, que os acolhia naquela noite que ainda estava prestes a começar.

Ao saírem da parte velha já no final da rua do Franco, José reparou no último bar antes de se entrar no grande passeio da Alameda. Chamava-se Dakar. 

Na sua cabeça o mítico rally** tinha ganho outro sentido.  

*Rosalía de Castro – Nasceu em Santiago de Compostela, 21 de Fevereiro de 1837 — e morreu em Padrón em 1885. Foi uma das maiores escritora e poetisa galegaConsiderada como a fundadora da literatura galega moderna, o 17 de Maio, Dia das Letras Galegas é feriado por causa de ser a data de edição da sua primeira obra em língua galega, Cantares GalegosRosalía de Castro nasceu em Camiño Novo, um arrabalde de Santiago de Compostela, sendo baptizada com os nomes de Maria Rosalía Rita. No registo do Hospital Real de Santiago de Compostela figura como filha de pais desconhecidos.

Sua mãe, María Teresa de la Cruz de Castro, fidalga da casa grande de Arretén pertencente à linhagem dos Castro, estabelecida na Galiza desde a Idade Média. Considerada tradicionalmente filha de José Martínez Viojo -embora não exista documentação que acredite este facto, um sacerdote católico de trinta e nove anos que, devido à sua condição, não pôde reconhecer nem legitimar a sua filha.

** Rally Paris-Dakar - The Dakar Rally (or simply "The Dakar"; formerly known as the "Paris–Dakar Rally") is an annual rally raid organised by the Amaury Sport Organisation. Most events since the inception in 1978 were from Paris, France, to Dakar, Senegal, but due to security threats in Mauritania, which led to the cancellation of the 2008 rally, the 2009 Dakar Rally was run in South America (Argentina and Chile).[1] It has been held in South America each year since 2009.[2][3] The race is open to amateur and professional entries, amateurs typically making up about eighty percent of the participants.

Despite its "rally" name, it is an off-road endurance race, properly called a "rally raid" rather than a conventional rally. The terrain that the competitors traverse is much tougher and the vehicles used are true off-road vehicles rather than the modified on-road vehicles used in rallies. Most of the competitive special sections are off-road, crossing dunes, mud, camel grass, rocks, and erg among others. The distances of each stage covered vary from short distances up to 800–900 kilometres (500–560 mi) per day.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s