– 26 – Flashback 5º Piso

Dois meses depois do jantar no Restaurante Paris, ali estava José novamente.

Dois meses depois voltava à rua Rosalía de Castro, bem próxima do parque de Santa Susana, sentado nas escadas do quinto piso, esperando e desesperando simultaneamente.

As memórias do encontro com Maria em Outubro de 1999 estavam todas presentes na sua cabeça, cansado da aventura que tinha sido chegar até ali, entreteve-se a revisitá-las uma a uma.

O processo apenas era interrompido, quando ouvia lá em baixo a porta da entrada do edifício a abrir. Nesse momento , o seu coração batia como se fosse rebentar e apenas relaxava, desanimado, ao perceber que não era Maria que subia.

Sem forma de falarem, pois viviam numa época em que ter um telemóvel era ainda o mesmo que andar com uma mala de viagem, cara por sinal, na mão. 

José não conseguia perceber no que se tinha tornado aquele final de tarde. 

Um desencontro de difícil compreensão, tinham falado ao telefone no dia anterior. Sabiam ambos que chegaria no comboio que vinha de Vigo pelas 20h00 e Maria estaria na escadaria grande de pedra logo em frente à saída.

Quando José saiu, chovia ainda com mais intensidade do que tinha acontecido ao longo do dia. Estava mais frio do que o frio que o tinha acompanhado desde Portugal. 

Depois de ter deixado todos os passageiros saírem à sua frente, bem como atrás de si, preparou-se mentalmente antes de sair da estação. Desejava um reencontro perfeito. 

Apenas ele e Maria desfrutando toda a felicidade do Universo.

Ao sair viu, para enorme tristeza sua, que não estava ninguém na escadaria. 

Subiu e desceu as escadas várias vezes na esperança de que fosse ele que estivesse no sítio errado, mas 15 minutos depois continuava sozinho, molhado até aos ossos e com mais perguntas do que respostas na sua cabeça.

Não se deu por vencido. Pensou que mesmo que algo tivesse acontecido, quer Maria tivesse decidido mudar de ideias e não quisesse mais aquele reencontro, quer um louco a tivesse atacado no caminho para a estação de caminhos de ferro, ele iria procurar as respostas para as suas perguntas.

É curioso observar como o cérebro humano é capaz de ter uma imaginação sem limites, pois em momento algum pensou que poderia apenas ter sido algo muito mais simples, quiçá um desencontro. 

Molhado e sem conseguir olhar direito para o que se passava à sua volta, caminhou até à rua onde Maria morava na esperança de que ela estivesse em casa. 

Ao chegar tocou várias vezes à campainha no intercomunicador da rua e, como resposta, teve apenas silêncio. 

De seguida pensou que talvez o botão estivesse estragado, e decidiu tocar para outro andar, que rapidamente abriu a porta sem sequer lhe perguntar quem era. 

Com as esperanças renovadas, pois provavelmente Maria estaria doente e a campainha da porta estragada, subiu os cinco lanços de escadas como se tivesse acabado de se levantar. 

No 5º piso ao bater com a mão na porta, teve uma vez mais como resposta silêncio total. A única coisa que conseguia ouvir era um televisor ligado, mas provavelmente no andar de baixo.

Restava-lhe esperar, uma, duas, três horas, as horas que fossem necessárias. Quando se apercebeu que era demasiado tarde para voltar a Portugal, começou a pôr em causa a razão daquela viagem relâmpago.

Os minutos foram passando, dando espaço para o pensamento ser povoado pela incerteza.

Pensou nos sinais que lhe pareciam dizer que talvez não devesse mesmo ter feito aquela viagem, enfim, a dúvida, essa malandra, ganhava terreno dentro de si.

A cada porta que se abria lá em baixo, não trazendo a pessoa que esperava, aumentava a sua angústia e as vozes da dúvida que não queria ouvir naquele momento. 

Era curioso observar como aquele “outro”, que também era ele, aparecia sempre quando menos era necessário, uma espécie de oportunista mal educado que, sem ser convidado, fazia a sua entrada em cena para o confundir e retirar todo e qualquer brilhantismo do que pudesse estar para acontecer.

Foi essa mesma “voz” que dois meses antes ouviu, quando regressavam ao apartamento depois de jantarem no restaurante Paris, caminhando por entre uma Santiago deserta depois do final do período de aulas e ainda demasiado cedo para a chegada dos primeiros peregrinos e turistas. 

Sem espaço para mais ninguém naquele passeio que iam conquistando com um passo dançado, a voz questionou-o se era mesmo aquilo que ele queria fazer.

Obtendo uma resposta positiva, devolveu a provocação com um ataque ainda mais cruel. Seria isto que ambos queriam mesmo? 

Seria amor e paixão ou apenas o seu melhor egoísmo levando não uma, mas duas pessoas de mão dada para o abismo?

Apercebeu-se do poder daquela voz, às vezes “maldita” às vezes “Santa”, quando Maria olhou para si preocupada e lhe perguntou se estava tudo bem?

Respondeu que sim, sorriu, mas nem o seu melhor sorriso disfarçou o que ia dentro de si, a “dança” no passeio desacelerou até ao ponto de parar, bem na porta de entrada do nº9. 

Parecia que caminhavam e falavam em câmara lenta. Nada se afigurava real, era preciso garantir que existiam limites nessa noite, uma negociação difícil, mas que teria de acontecer para poderem subir de mão dada até ao apartamento. 

José prometeu a si mesmo, entre o primeiro e o segundo andar, que não faria nada que ambos pudessem ter dúvidas em fazer. Pareceu-lhe ser esse o mínimo e simultaneamente o máximo que lhe podia ser exigido. 

Maria colocou a chave na fechadura, abriu a porta entrando na escuridão do pequeno apartamento.

Sentaram-se à volta da mesa na sala de jantar e, sem terem acendido as luzes, continuaram de mãos dadas, olhando um para o outro apenas com o reflexo de uma pequena vela que Maria tinha acendido antes de se sentarem, colocada no centro do tampo de madeira.

O silêncio fazia o resto. Cada toque que os dedos iam trocando, aumentava o prazer pelo momento ao ponto de o tornar irreal, único, e, sem terem bebido nada que pudesse ampliar as sensações, sentiam-se nas nuvens, ou seria no inferno? De onde não existe forma de escapar. 

A porta do edifício, lá em baixo, voltou a abrir-se e a fechar com um valente estrondo, levando os pensamentos de José de volta à sua fria espera. Levantou-se para contrabalançar o rabo gelado com a expectativa de que fosse ela. 

Ninguém abriu as portas no primeiro e segundo lanço e, como que um torpedo que nos atinge sem avisar, imaginou a sua mão a abrir a blusa e a tocar os seios de Maria.

Percebeu que era um déjà vu, um mês antes, naquele mesmo prédio, quando estavam sentados na mesa por detrás da porta onde se encontrava naquela longa espera, também sentiu algo semelhante.

À medida que tocava com as pontas dos seus dedos na palma da sua mão, imaginou os mesmos a percorrerem a pele branca de Maria coberta de sardas, desde as suas costas até aos seus peitos, volumosos, cheios de prazer para dar e receber. 

Em Outubro passado, quando estavam no apartamento de Maria, as defesas foram ficando mais curtas à medida que olhavam mais profundamente nos olhos um do outro.

Não dizendo uma palavra, dizendo tudo de uma vez, José pegou com mais firmeza na sua mão e levantaram-se os dois, tal e qual como dois imanes que não podem fazer nada para se repelirem e evitar tocarem-se.

Sentindo de imediato o calor da sua boca junto da sua e sem nunca se beijarem, José rendeu o seu peito esmagado contra o de Maria, ambos pulsando cada vez mais e mais de vida, de erotismo, transpiravam prazer, e a ideia de o poderem ter sem limites e a qualquer momento era algo de maravilhoso.

Do diálogo silencioso que tinha sido iniciado à volta da vela e da mesa que a suportava, seguiram através de um bailado que nunca antes ousaram experimentar até ao quarto, curiosamente não o quarto de Maria, mas aquele estava mais próximo dos seus corpos, deitaram-se lentamente sobre uma cama, ou terá sido sobre um precipício? Não se conseguia lembrar.

A cabeça de José parecia estar a ficar completamente alterada, lutando por se focar em decifrar os sons que vinham dos primeiros andares do edifício na esperança que fosse Maria a subir e que de uma vez por todas aquela espera terminasse e o desencontro dessa noite fosse explicado. 

Por outro lado as memórias ainda frescas da noite que tinham vivido meses antes e que José se tinha entretido a revisitar para o ajudar a passar o tempo, mas que, na escuridão do vão da escada, se tinham tornado fantasmas assustadores que o assaltavam repetidamente sem piedade, tornando cada segundo que passava uma tortura de prazer entre a dúvida e o desejo.

Mais uns segundos e conseguia ouvir os passos que subiam ao terceiro piso. Nenhuma porta se abriu. 

Seguiu-se novamente um silêncio e os passos continuaram em direcção ao quarto piso. Pensou então que não tinha preparado nada para dizer, caso fosse Maria.

Nenhuma frase brilhante que pudesse minimizar toda aquela situação.

Provavelmente nem seria ela, embora o seu desejo a conseguisse imaginar de saia negra, curta, logo acima dos joelhos e meias pretas. 

Iria dar-lhe um abraço sem limites e as suas mãos percorreriam desde as suas ancas até aos seus joelhos brancos e no regresso, afagariam o centro do seu mundo, o seu sangue estava em ebulição*.

* O fenómeno da ebulição ocorre quando uma substância passa do estado líquido para o estado gasoso, e é constante para uma mesma substância, nas mesmas condições de pressão. O ponto de ebulição da água no nível do mar é de 100,0°C

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