– 30 – Tempo

 Life is what happens to you while you’re busy making other plans*.

Pouco importa saber se foi John Lennon, Allen Saunders ou Quin Ryan, o primeiro a utilizar a famosa expressão, desde que se perceba o seu verdadeiro significado.

Por um minuto, ou mesmo um segundo, se perde ou se salva uma vida, por um minuto ou mesmo um segundo nos cruzamos com a pessoa que nos poderá mudar para sempre. 

Por um minuto, ou mesmo um segundo se diz ou se deixa de dizer algo que nunca mais poderemos repetir.

Embora as oportunidades possam passar por nós e mais tarde regressar, o mesmo já não se passa com o tempo. 

Por cada minuto que o ponteiro dos segundos perfaz em redor do mecanismo de um relógio, sessenta segundos voam para sempre da ampulheta da vida e jamais alguém conseguiu recuperá-los.

Quando confrontado com as voltas que a vida gosta de dar a quem tem por tentação fazer planos da sua existência, tropeçou, caiu e não foi capaz de se levantar.

Quando se pensa que bater no fundo é o mais baixo que se consegue descer, tendo a ilusão que daí em diante o caminho inverso é o da inevitável redenção, enganamo-nos. 

Para muitos, continuar a rastejar indefinidamente na lama da tristeza e do desalento é apenas o começo de um definhar em direcção a uma morte lenta, mas certa.

* John Lennon did compose a song containing this saying and released it in 1980. The song was called “Beautiful Boy” or “Darling Boy” and it was part of the album “Double Fantasy”. Lennon wrote the lyrics about his experiences with his son Sean whose mother is Yoko Ono.

O ano 2000, para além de ter trazido a José o novo milénio, trouxe também um Inverno só comparável à pequena idade do gelo*. 

O sabor da morte, que pouco antes já tinha experimentado na sua vida, estava de regresso. 

Sem perceber bem de quem teria sido a culpa. Da primavera não poderia ser pois naquele ano fora realmente tardia, a Sr.ª Dª Rosa acabou por acompanhar o Prof. Costa Terra, um coração fraco ou um fraco coração terá aparentemente sido a causa e o efeito.

Toda a situação lhe pareceu um déjà vu, a entrada em casa, a vizinha do 2º Dto, a Dª Aurélia porteira e a tia Lurdes que só via no Natal, todas sentadas em redor do sofá na sala. 

Os mesmos procedimentos, a mesma capela mortuária, o mesmo Padre, e era capaz de jurar a mesma chuva, irritante e desoladora que também caíra aquando a morte do Pai.

Não teve tempo de partilhar com a Mãe o amor que tinha a certeza de ter encontrado, tinha sido tudo tão rápido, incluindo a morte.

Pela primeira vez tinha experimentado a sensação de estar absolutamente sozinho. Ficava sentado e depois deitado na sala em frente a uma televisão ligada para ninguém ver, às vezes é esta a única função de certas companhias.

Achou estranho que o seu amigo e sócio, Miguel, não tivesse estado ao seu lado naqueles dias de luto, que pareciam não ter fim.

Talvez até tivesse passado pela Igreja e tenha sido o olhar turvo a bloquear-lhe a visão. 

* A Pequena Idade do Gelo - foi um período de arrefecimento que ocorreu na Era Moderna. Teria sido nos anos 1650, 1770 e 1850 que ocorreram os mínimos de temperatura, cada um separado por intervalos ligeiramente mais quentes . O período mais frio da Pequena Era Glacial parece estar relacionado com uma profunda queda nas tempestades solares conhecida como "Mínimo de Maunder".

No século XVII, devido à Pequena Idade do Gelo, os Vikings abandonaram a Groenlândia, cuja vegetação passou de verdejante a tundra. A Finlândia perdeu então um terço da sua população e a Islândia metade. Na Inglaterra, o Tamisa gelou (pela primeira vez em 1607, pela última em 1814). No Inverno de 1780, a zona fluvial de Nova Iorque gelou e podia-se ir a pé da ilha de Manhattan à de Staten Island, tendo sido bloqueadas as ligações comerciais por via marítima.

Os canais holandeses costumavam ficar completamente congelados. As geleiras nos Alpes cobriam aldeias inteiras, matando milhares de pessoas, tendo-se formado uma grande quantidade de gelo no mar, a tal ponto que não existia mar aberto em torno da Islândia em 1695.

Durante vários dias não saiu de casa, mas quando o fez percebeu que afinal de contas o mundo não tinha parado, ninguém para além de si próprio, das vizinhas e da tia, choravam a ausência de quem partira. 

Seguindo a melhor tradição do Latim, Malis mala succedunt* e antes da missa de sétimo dia ficou também a saber que, na sua ausência, ambos os sócios na empresa que ajudara a fundar, tinham preparado um plano de futuro no qual José não fazia parte. 

Pelo meio, ficaram não um, nem dois, nem três telefonemas para Santiago, mas várias mãos com todos os dedos a que geralmente se tem direito. 

Nem por uma vez as suas tentativas foram atendidas, quiçá tivesse novamente confundido os sete algarismos, mas era pouco provável. 

Ocorreu-lhe fazer a viagem de regresso à Galiza para perceber a razão de Maria não lhe ter respondido, mas a cada telefonema sem resposta sentia cada vez mais dúvidas. A distância entre as duas cidades parecia ficar cada vez maior. 

Passavam-se dias em que a única coisa que lhe reconfortava o espírito e o estômago era a sopa de legumes ou a canja de galinha, que a sua tia trazia de três em três dia.

As forças para acolher mais um revés na sua vida não suportavam sequer a possibilidade da ideia, daí que tenha preferido ficar em casa acumulando dias de escuridão. 

Quem pagou a raiva e frustração acumulada foi a belíssima Fender all solid classical**, acabando esmagada contra a parede do corredor numa das poucas viagens que fez entre o quarto e a casa de banho. 

A cereja em cima do bolo numa semana irrepetível fora o fim de algo que nunca tinha sequer chegado a ser, a não ser ao que parece na sua própria cabeça.

* Malis mala Succedunt - Uma desgraça nunca vem só.
** Fender, is a US manufacturer of stringed instruments and amplifiers, such as solid-body electric guitars, including the Stratocaster and the Telecaste. The company began as Fender's Radio Service in late 1938 in Fullerton, California. It got its name from the surname of its founder Leo Fender.

Em menos de três meses, o 3º Esq do nº10 da rua Castilho tinha sido vendido. A família Costa Terra já não morava ali. 

O tempo, esse, continuou o seu rumo, implacável, ano após ano.

A pouco mais de quinhentos quilómetros de Lisboa, Maria fazia as malas para um destino à muito pensado, agarrara com as duas mãos a oportunidade de poder deixar para trás a vida que não tinha chegado a ser.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s