Arquivo da categoria: Rosalía de Castro (Português)

Novo website – Novas funcionalidades

 

 

A partir de hoje já é possível aceder ao novo website do livro Rosalía de Castro – www.bookrosaliadecastro.com –

No novo endereço poderá encontrar novas funcionalidades e formas de acompanhar a história que continua a sonhar.

Não deixe de subscrever o novo domínio na medida em que este endereço será descontinuado em breve.

 

– 30 – Tempo

 Life is what happens to you while you’re busy making other plans*.

Pouco importa saber se foi John Lennon, Allen Saunders ou Quin Ryan, o primeiro a utilizar a famosa expressão, desde que se perceba o seu verdadeiro significado.

Por um minuto, ou mesmo um segundo, se perde ou se salva uma vida, por um minuto ou mesmo um segundo nos cruzamos com a pessoa que nos poderá mudar para sempre. 

Por um minuto, ou mesmo um segundo se diz ou se deixa de dizer algo que nunca mais poderemos repetir.

Embora as oportunidades possam passar por nós e mais tarde regressar, o mesmo já não se passa com o tempo. 

Por cada minuto que o ponteiro dos segundos perfaz em redor do mecanismo de um relógio, sessenta segundos voam para sempre da ampulheta da vida e jamais alguém conseguiu recuperá-los.

Quando confrontado com as voltas que a vida gosta de dar a quem tem por tentação fazer planos da sua existência, tropeçou, caiu e não foi capaz de se levantar.

Quando se pensa que bater no fundo é o mais baixo que se consegue descer, tendo a ilusão que daí em diante o caminho inverso é o da inevitável redenção, enganamo-nos. 

Para muitos, continuar a rastejar indefinidamente na lama da tristeza e do desalento é apenas o começo de um definhar em direcção a uma morte lenta, mas certa.

* John Lennon did compose a song containing this saying and released it in 1980. The song was called “Beautiful Boy” or “Darling Boy” and it was part of the album “Double Fantasy”. Lennon wrote the lyrics about his experiences with his son Sean whose mother is Yoko Ono.

O ano 2000, para além de ter trazido a José o novo milénio, trouxe também um Inverno só comparável à pequena idade do gelo*. 

O sabor da morte, que pouco antes já tinha experimentado na sua vida, estava de regresso. 

Sem perceber bem de quem teria sido a culpa. Da primavera não poderia ser pois naquele ano fora realmente tardia, a Sr.ª Dª Rosa acabou por acompanhar o Prof. Costa Terra, um coração fraco ou um fraco coração terá aparentemente sido a causa e o efeito.

Toda a situação lhe pareceu um déjà vu, a entrada em casa, a vizinha do 2º Dto, a Dª Aurélia porteira e a tia Lurdes que só via no Natal, todas sentadas em redor do sofá na sala. 

Os mesmos procedimentos, a mesma capela mortuária, o mesmo Padre, e era capaz de jurar a mesma chuva, irritante e desoladora que também caíra aquando a morte do Pai.

Não teve tempo de partilhar com a Mãe o amor que tinha a certeza de ter encontrado, tinha sido tudo tão rápido, incluindo a morte.

Pela primeira vez tinha experimentado a sensação de estar absolutamente sozinho. Ficava sentado e depois deitado na sala em frente a uma televisão ligada para ninguém ver, às vezes é esta a única função de certas companhias.

Achou estranho que o seu amigo e sócio, Miguel, não tivesse estado ao seu lado naqueles dias de luto, que pareciam não ter fim.

Talvez até tivesse passado pela Igreja e tenha sido o olhar turvo a bloquear-lhe a visão. 

* A Pequena Idade do Gelo - foi um período de arrefecimento que ocorreu na Era Moderna. Teria sido nos anos 1650, 1770 e 1850 que ocorreram os mínimos de temperatura, cada um separado por intervalos ligeiramente mais quentes . O período mais frio da Pequena Era Glacial parece estar relacionado com uma profunda queda nas tempestades solares conhecida como "Mínimo de Maunder".

No século XVII, devido à Pequena Idade do Gelo, os Vikings abandonaram a Groenlândia, cuja vegetação passou de verdejante a tundra. A Finlândia perdeu então um terço da sua população e a Islândia metade. Na Inglaterra, o Tamisa gelou (pela primeira vez em 1607, pela última em 1814). No Inverno de 1780, a zona fluvial de Nova Iorque gelou e podia-se ir a pé da ilha de Manhattan à de Staten Island, tendo sido bloqueadas as ligações comerciais por via marítima.

Os canais holandeses costumavam ficar completamente congelados. As geleiras nos Alpes cobriam aldeias inteiras, matando milhares de pessoas, tendo-se formado uma grande quantidade de gelo no mar, a tal ponto que não existia mar aberto em torno da Islândia em 1695.

Durante vários dias não saiu de casa, mas quando o fez percebeu que afinal de contas o mundo não tinha parado, ninguém para além de si próprio, das vizinhas e da tia, choravam a ausência de quem partira. 

Seguindo a melhor tradição do Latim, Malis mala succedunt* e antes da missa de sétimo dia ficou também a saber que, na sua ausência, ambos os sócios na empresa que ajudara a fundar, tinham preparado um plano de futuro no qual José não fazia parte. 

Pelo meio, ficaram não um, nem dois, nem três telefonemas para Santiago, mas várias mãos com todos os dedos a que geralmente se tem direito. 

Nem por uma vez as suas tentativas foram atendidas, quiçá tivesse novamente confundido os sete algarismos, mas era pouco provável. 

Ocorreu-lhe fazer a viagem de regresso à Galiza para perceber a razão de Maria não lhe ter respondido, mas a cada telefonema sem resposta sentia cada vez mais dúvidas. A distância entre as duas cidades parecia ficar cada vez maior. 

Passavam-se dias em que a única coisa que lhe reconfortava o espírito e o estômago era a sopa de legumes ou a canja de galinha, que a sua tia trazia de três em três dia.

As forças para acolher mais um revés na sua vida não suportavam sequer a possibilidade da ideia, daí que tenha preferido ficar em casa acumulando dias de escuridão. 

Quem pagou a raiva e frustração acumulada foi a belíssima Fender all solid classical**, acabando esmagada contra a parede do corredor numa das poucas viagens que fez entre o quarto e a casa de banho. 

A cereja em cima do bolo numa semana irrepetível fora o fim de algo que nunca tinha sequer chegado a ser, a não ser ao que parece na sua própria cabeça.

* Malis mala Succedunt - Uma desgraça nunca vem só.
** Fender, is a US manufacturer of stringed instruments and amplifiers, such as solid-body electric guitars, including the Stratocaster and the Telecaste. The company began as Fender's Radio Service in late 1938 in Fullerton, California. It got its name from the surname of its founder Leo Fender.

Em menos de três meses, o 3º Esq do nº10 da rua Castilho tinha sido vendido. A família Costa Terra já não morava ali. 

O tempo, esse, continuou o seu rumo, implacável, ano após ano.

A pouco mais de quinhentos quilómetros de Lisboa, Maria fazia as malas para um destino à muito pensado, agarrara com as duas mãos a oportunidade de poder deixar para trás a vida que não tinha chegado a ser.

– 29 – The Book of Secrets

Dois meses depois estavam de volta à mesma casa, para completar o que tinha sido iniciado numa noite semelhante.

Sem mais palavras do que as necessárias para perceber que tudo não tinha passado de um enorme desencontro, a roupa a mais que os corpos transportavam caiu no chão.

No quarto de Maria confirmaram o que tinham começado um século antes.

A cama encostada à janela criava um recanto natural, uma reentrância escavada nas suas vidas, iluminada com os recortes dos seus corpos projectados pela luz da vela que anteriormente os tinha acompanhado. 

Perderam a conta das vezes que se amaram durante aquele final de semana. As horas eram deles, a música era de Loreena Mckennit*, a vela à beira da cama provavelmente da colega de piso, Letizia.

Poucas vezes deixaram o quarto, eventualmente apenas para mordiscar alguma comida no frigorifico, mas apenas por breves instantes. 

Cada vez que se olhavam, a única coisa que queriam, era voltar a amar-se, voltando abraçados para a sua caverna**. 

Anos depois, a memória de José continuava presa algures entre a sexta-feira e o domingo daquele frio e chuvoso final de semana dos primeiros dias de Janeiro. Estavam em 2000 e o mundo curiosamente não tinha acabado.  

* Loreena Isabel Irene McKennitt - born February 17, 1957 is a Canadian singer, composer, harpist, accordionist and pianist who writes, records and performs world music with Celtic and Middle Eastern themes. McKennitt is known for her refined, clear soprano vocals

** The Allegory of the Cave—also known as the Analogy of the Cave, Plato's Cave, or the Parable of the Cave—is an allegory used by the Greek philosopher Plato in his work The Republic to illustrate "our nature in its education and want of education".

In the dialogue, Socrates describes a group of people who have lived chained to the wall of a cave all of their lives, facing a blank wall. The people watch shadows projected on the wall by things passing in front of a fire behind them, and begin to ascribe forms to these shadows.

– 28 – Flashback/Enfim Paz

Os passos no andar de baixo ficaram tão fortes que os podia ouvir dentro da sua garganta, estavam tão próximos, que achou melhor pôr-se direito numa posição quase natural de quem teve uma surpresa.

Desejava sentir-se menos parvo naquela situação em que estava, isto para além de ter o rabo enregelado e as hormonas a fazer um cocktail de esperma dentro da sua cabeça.

O som passou a vulto e o vulto passou a quem ele esperava. 

Mesmo no escuro, era fácil ver os seus olhos muito azuis quando ouviu: 

  • Hola José
  • Maria?

Como se estivesse à espera de ser encontrado ali mesmo.

  • Maria, estive quase uma hora na estação de comboios à tua espera, mas não estavas, não estava ninguém.
  • José, também eu estive mais de uma hora na estação de comboios, de baixo de um chapéu de chuva, esperando por ti, mas não te vi chegar, ninguém chegou.

Olhavam-se entre as sombras da luz das escadas que se apagara naquele instante.

– No tienes que mirar mas allá!

– Amo-te querida 

Antes de continuarem a falar tentando perceber o desencontro, já tinham feito as pazes com o destino.

Foi incrível perceber como o ser humano é capaz de ultrapassar situações extremas tanto físicas como psicológicas com uma simples mudança de observação. 

Todas as dúvidas, das mais profundas às mais simples, não apenas as de José mas também as de Maria tinham-se dissipado e apenas a presença de um em frente ao outro bastava.

No final, José tinha-se esquecido de fazer algo muito simples mas de vital importância quando mudamos de País. Não tinha adiantado o seu relógio o que queria dizer que tinha estado uma hora antes do combinado esperando por alguém que apenas deveria chegar uma hora depois.

José sentia-se um completo anormal ao perceber que tinha sido demasiado rápido a julgar, a criar factos novos e logo depois novas realidades. 

O segredo de uma vida feliz passa por uma separação entre as coisas que nos acontecem e nós próprios. Os acontecimentos não somos nós. 

Entre a escuridão que os rodeava no hall de entrada, existia apenas felicidade.

Viviam novamente! O relógio e o tempo que anteriormente tinham feito misérias, eram agora o maior aliado. 

Tinham três dias repletos de segundos, horas e minutos, à espera de serem abertos, vividos e nada mais. Não havia outras preocupações para além de receber e dar prazer um ao outro. 

Momentos de total perdição que ambos tinham desejado, levando a sua paciência aos limites da paciência, mestres de um amor masoquista.

Entrelaçaram os dedos sem que os pés tocassem o chão que os separava da entrada ainda escura do quarto de Maria e entraram.

– 27 – Tenho medo

Dois meses antes, ao regressarem do jantar na parte antiga da cidade, e depois de terem conversado à volta da mesa que agora ficava para trás, José lembrou-se do que tinha acontecido depois de se terem deitado no cimo da cama do quarto da colega de Maria. 

José vivia um dilema desde que tinha saído do restaurante Paris, embora soubesse que não obrigaria Maria a fazer algo que ambos não quisessem.

Desligou todas as preocupações quando se beijaram depois de se deitarem sobre a cama. José achou que seria um caminho sem retorno, queria muito que fosse um caminho sem retorno, queria amá-la verdadeiramente em todas as formas que sabia e podia imaginar.

Sentiu no toque de Maria que o desejo era mútuo, e embora estivesse muito escuro, conseguia ver uns pequenos olhos azuis que lhe pareciam dizer algo que não compreendia. Não eram consistentes com tudo o resto.

Parou de beijá-la por instantes, e ao contrário das respirações ofegantes que preenchiam aquele momento, foi o silêncio que ocupou o espaço que restava no pequeno quarto. Era inevitável que falassem. 

Ele não sabia o que dizer, embora no fundo quisesse perguntar porque é que ela não queria continuar, quais eram os seus receios.

Não teve tempo para dizer nada. Os olhos que antes lhe pareciam pequenas luzes azuis eram agora imensos oceanos que vinham até si em torrentes de questões. 

Queria evitar a todo o custo o que estaria prestes a ouvir mas estava nos braços de Maria. Não podia fugir para lado algum e mesmo que pudesse, no fundo não o queria fazer. 

  • Sabes José, é a minha primeira vez e tenho medo…

As palavras de Maria tinham saído entrecortadas como se estivesse aterrada de receios em falar.

  • Quero muito estar contigo aqui, e quero muito que sejas tu, o primeiro, o único homem da minha vida, mas hoje apenas quero estar junto a ti.

Quando acabou de falar os olhos de Maria abriram-se ainda mais e em simultâneo o seu corpo pareceu desaparecer entre os seus braços. 

José não conseguiu dizer uma só palavra, limitou-se a abraçá-la o mais que podia e procurou encontrar um espaço dentro de si onde fosse possível pensar sem ser ouvido. 

Será que quando ela lhe disse que era a primeira vez, estaria ele a entender bem que ela lhe dizia que era virgem?

Parecia ter nos braços uma menina de 14 anos. Teve vontade de desaparecer…Como era possível?

Era capaz de jurar que com aquele estilo confiante, misto de rebeldia em cara de santa, já tinha ido para a cama com mais gajos do que ele tinha inventado em canções na sua guitarra.

Abraçaram-se ainda mais, acho até que choraram os dois e, mais cedo ou mais tarde, dormiram como se um só corpo estivesse naquela cama, um momento irrepetível embora não o soubessem naquela altura.

– 26 – Flashback 5º Piso

Dois meses depois do jantar no Restaurante Paris, ali estava José novamente.

Dois meses depois voltava à rua Rosalía de Castro, bem próxima do parque de Santa Susana, sentado nas escadas do quinto piso, esperando e desesperando simultaneamente.

As memórias do encontro com Maria em Outubro de 1999 estavam todas presentes na sua cabeça, cansado da aventura que tinha sido chegar até ali, entreteve-se a revisitá-las uma a uma.

O processo apenas era interrompido, quando ouvia lá em baixo a porta da entrada do edifício a abrir. Nesse momento , o seu coração batia como se fosse rebentar e apenas relaxava, desanimado, ao perceber que não era Maria que subia.

Sem forma de falarem, pois viviam numa época em que ter um telemóvel era ainda o mesmo que andar com uma mala de viagem, cara por sinal, na mão. 

José não conseguia perceber no que se tinha tornado aquele final de tarde. 

Um desencontro de difícil compreensão, tinham falado ao telefone no dia anterior. Sabiam ambos que chegaria no comboio que vinha de Vigo pelas 20h00 e Maria estaria na escadaria grande de pedra logo em frente à saída.

Quando José saiu, chovia ainda com mais intensidade do que tinha acontecido ao longo do dia. Estava mais frio do que o frio que o tinha acompanhado desde Portugal. 

Depois de ter deixado todos os passageiros saírem à sua frente, bem como atrás de si, preparou-se mentalmente antes de sair da estação. Desejava um reencontro perfeito. 

Apenas ele e Maria desfrutando toda a felicidade do Universo.

Ao sair viu, para enorme tristeza sua, que não estava ninguém na escadaria. 

Subiu e desceu as escadas várias vezes na esperança de que fosse ele que estivesse no sítio errado, mas 15 minutos depois continuava sozinho, molhado até aos ossos e com mais perguntas do que respostas na sua cabeça.

Não se deu por vencido. Pensou que mesmo que algo tivesse acontecido, quer Maria tivesse decidido mudar de ideias e não quisesse mais aquele reencontro, quer um louco a tivesse atacado no caminho para a estação de caminhos de ferro, ele iria procurar as respostas para as suas perguntas.

É curioso observar como o cérebro humano é capaz de ter uma imaginação sem limites, pois em momento algum pensou que poderia apenas ter sido algo muito mais simples, quiçá um desencontro. 

Molhado e sem conseguir olhar direito para o que se passava à sua volta, caminhou até à rua onde Maria morava na esperança de que ela estivesse em casa. 

Ao chegar tocou várias vezes à campainha no intercomunicador da rua e, como resposta, teve apenas silêncio. 

De seguida pensou que talvez o botão estivesse estragado, e decidiu tocar para outro andar, que rapidamente abriu a porta sem sequer lhe perguntar quem era. 

Com as esperanças renovadas, pois provavelmente Maria estaria doente e a campainha da porta estragada, subiu os cinco lanços de escadas como se tivesse acabado de se levantar. 

No 5º piso ao bater com a mão na porta, teve uma vez mais como resposta silêncio total. A única coisa que conseguia ouvir era um televisor ligado, mas provavelmente no andar de baixo.

Restava-lhe esperar, uma, duas, três horas, as horas que fossem necessárias. Quando se apercebeu que era demasiado tarde para voltar a Portugal, começou a pôr em causa a razão daquela viagem relâmpago.

Os minutos foram passando, dando espaço para o pensamento ser povoado pela incerteza.

Pensou nos sinais que lhe pareciam dizer que talvez não devesse mesmo ter feito aquela viagem, enfim, a dúvida, essa malandra, ganhava terreno dentro de si.

A cada porta que se abria lá em baixo, não trazendo a pessoa que esperava, aumentava a sua angústia e as vozes da dúvida que não queria ouvir naquele momento. 

Era curioso observar como aquele “outro”, que também era ele, aparecia sempre quando menos era necessário, uma espécie de oportunista mal educado que, sem ser convidado, fazia a sua entrada em cena para o confundir e retirar todo e qualquer brilhantismo do que pudesse estar para acontecer.

Foi essa mesma “voz” que dois meses antes ouviu, quando regressavam ao apartamento depois de jantarem no restaurante Paris, caminhando por entre uma Santiago deserta depois do final do período de aulas e ainda demasiado cedo para a chegada dos primeiros peregrinos e turistas. 

Sem espaço para mais ninguém naquele passeio que iam conquistando com um passo dançado, a voz questionou-o se era mesmo aquilo que ele queria fazer.

Obtendo uma resposta positiva, devolveu a provocação com um ataque ainda mais cruel. Seria isto que ambos queriam mesmo? 

Seria amor e paixão ou apenas o seu melhor egoísmo levando não uma, mas duas pessoas de mão dada para o abismo?

Apercebeu-se do poder daquela voz, às vezes “maldita” às vezes “Santa”, quando Maria olhou para si preocupada e lhe perguntou se estava tudo bem?

Respondeu que sim, sorriu, mas nem o seu melhor sorriso disfarçou o que ia dentro de si, a “dança” no passeio desacelerou até ao ponto de parar, bem na porta de entrada do nº9. 

Parecia que caminhavam e falavam em câmara lenta. Nada se afigurava real, era preciso garantir que existiam limites nessa noite, uma negociação difícil, mas que teria de acontecer para poderem subir de mão dada até ao apartamento. 

José prometeu a si mesmo, entre o primeiro e o segundo andar, que não faria nada que ambos pudessem ter dúvidas em fazer. Pareceu-lhe ser esse o mínimo e simultaneamente o máximo que lhe podia ser exigido. 

Maria colocou a chave na fechadura, abriu a porta entrando na escuridão do pequeno apartamento.

Sentaram-se à volta da mesa na sala de jantar e, sem terem acendido as luzes, continuaram de mãos dadas, olhando um para o outro apenas com o reflexo de uma pequena vela que Maria tinha acendido antes de se sentarem, colocada no centro do tampo de madeira.

O silêncio fazia o resto. Cada toque que os dedos iam trocando, aumentava o prazer pelo momento ao ponto de o tornar irreal, único, e, sem terem bebido nada que pudesse ampliar as sensações, sentiam-se nas nuvens, ou seria no inferno? De onde não existe forma de escapar. 

A porta do edifício, lá em baixo, voltou a abrir-se e a fechar com um valente estrondo, levando os pensamentos de José de volta à sua fria espera. Levantou-se para contrabalançar o rabo gelado com a expectativa de que fosse ela. 

Ninguém abriu as portas no primeiro e segundo lanço e, como que um torpedo que nos atinge sem avisar, imaginou a sua mão a abrir a blusa e a tocar os seios de Maria.

Percebeu que era um déjà vu, um mês antes, naquele mesmo prédio, quando estavam sentados na mesa por detrás da porta onde se encontrava naquela longa espera, também sentiu algo semelhante.

À medida que tocava com as pontas dos seus dedos na palma da sua mão, imaginou os mesmos a percorrerem a pele branca de Maria coberta de sardas, desde as suas costas até aos seus peitos, volumosos, cheios de prazer para dar e receber. 

Em Outubro passado, quando estavam no apartamento de Maria, as defesas foram ficando mais curtas à medida que olhavam mais profundamente nos olhos um do outro.

Não dizendo uma palavra, dizendo tudo de uma vez, José pegou com mais firmeza na sua mão e levantaram-se os dois, tal e qual como dois imanes que não podem fazer nada para se repelirem e evitar tocarem-se.

Sentindo de imediato o calor da sua boca junto da sua e sem nunca se beijarem, José rendeu o seu peito esmagado contra o de Maria, ambos pulsando cada vez mais e mais de vida, de erotismo, transpiravam prazer, e a ideia de o poderem ter sem limites e a qualquer momento era algo de maravilhoso.

Do diálogo silencioso que tinha sido iniciado à volta da vela e da mesa que a suportava, seguiram através de um bailado que nunca antes ousaram experimentar até ao quarto, curiosamente não o quarto de Maria, mas aquele estava mais próximo dos seus corpos, deitaram-se lentamente sobre uma cama, ou terá sido sobre um precipício? Não se conseguia lembrar.

A cabeça de José parecia estar a ficar completamente alterada, lutando por se focar em decifrar os sons que vinham dos primeiros andares do edifício na esperança que fosse Maria a subir e que de uma vez por todas aquela espera terminasse e o desencontro dessa noite fosse explicado. 

Por outro lado as memórias ainda frescas da noite que tinham vivido meses antes e que José se tinha entretido a revisitar para o ajudar a passar o tempo, mas que, na escuridão do vão da escada, se tinham tornado fantasmas assustadores que o assaltavam repetidamente sem piedade, tornando cada segundo que passava uma tortura de prazer entre a dúvida e o desejo.

Mais uns segundos e conseguia ouvir os passos que subiam ao terceiro piso. Nenhuma porta se abriu. 

Seguiu-se novamente um silêncio e os passos continuaram em direcção ao quarto piso. Pensou então que não tinha preparado nada para dizer, caso fosse Maria.

Nenhuma frase brilhante que pudesse minimizar toda aquela situação.

Provavelmente nem seria ela, embora o seu desejo a conseguisse imaginar de saia negra, curta, logo acima dos joelhos e meias pretas. 

Iria dar-lhe um abraço sem limites e as suas mãos percorreriam desde as suas ancas até aos seus joelhos brancos e no regresso, afagariam o centro do seu mundo, o seu sangue estava em ebulição*.

* O fenómeno da ebulição ocorre quando uma substância passa do estado líquido para o estado gasoso, e é constante para uma mesma substância, nas mesmas condições de pressão. O ponto de ebulição da água no nível do mar é de 100,0°C

– 25 – Paris/Dakar

Subiu os três degraus que separavam a plataforma do comboio que tinha acabado de chegar na linha 2, e ao abrir a porta da composição sentiu o ar quente do ar condicionado tocar-lhe na cara. 

Procurou um lugar para se sentar, o que não tendo acontecido não teria sido problema. Na carruagem inteira era o único passageiro. 

Poucos minutos depois, as casas de pedra e a igreja de São Bartolomeu ficavam lentamente para trás, estavam em marcha em direcção a Vigo, primeiro, e depois para Santiago de Compostela. 

Ainda pensou em recuperar o ponto onde tinha deixado de ler. Tinha na mão o fio da navalha*, mas era impossível fazê-lo. As suas fantasias eram alimentadas pela noite que tinha passado com Maria após o aniversário desta.

Lembrava-se que ao acordar e depois de ter visto o bilhete deixado perto do despertador tinha a noção de que as suas vidas mudariam para sempre, e mudaram.

Quando Maria voltou ao final da tarde, José já estava pronto provavelmente há mais de duas horas, sentado na pequena mesa redonda perdida no meio da sala, tal como ele.

Ali estavam os dois, frente a frente rodeados por um silêncio ensurdecedor. Se alguém se tivesse aproximado do peito de José, ouviria o seu coração, qual tambor de guerra, procurando perceber onde estava o inimigo, se à sua frente se dentro de si.

* Fio da navalha - The Razor's Edge is a book by W. Somerset Maugham published in 1944. Its epigraph reads, "The sharp edge of a razor is difficult to pass over; thus the wise say the path to Salvation is hard," taken from a verse in the Katha-Upanishad.

The Razor's Edge tells the story of Larry Darrell, an American pilot traumatised by his experiences in World War I, who sets off in search of some transcendent meaning in his life. The story begins through the eyes of Larry's friends and acquaintances as they witness his personality change after the War. His rejection of conventional life and search for meaningful experience allows him to thrive while the more materialistic characters suffer reversals of fortune. The book was twice adapted into film, first in 1946 starring Tyrone Power and Gene Tierney, and Herbert Marshall as Maugham and Anne Baxter as Sophie, and then a 1984 adaptation starring Bill Murray.

Saíram para jantar caminhando em redor do “Casco Antiguo” , ruas que nenhum arquitecto à excepção do tempo poderia desenhar. Um passo de cada vez foi a forma como a conversa se desenvolveu. 

Era um prazer sem precedentes estar ali, juntos, caminhando lado a lado, descobrindo naquele antigo caminho novos e surpreendentes caminhos dentro de cada um. 

Do trabalho de José aos estudos de Maria, passaram à música que lhes dava imenso prazer em falar. Por ser algo tão natural nas suas vidas, era quase como respirar. 

Nos minutos intercalados pelos olhares, José conseguiu explicar como o tempo tinha corrido penteando os últimos anos de encontros e desencontros. 

As referências sucediam-se e sentiam o interesse um pelo outro crescer , à medida que os passos avançavam e a noite engolia a cidade, Maria ia ficando cada vez mais bonita.

Pararam na entrada do que parecia ser o restaurante para jantar. Tinha um letreiro estranho por cima da porta onde se podia ler sem problemas – Paris –

– Adoro Paris!

Disse Maria colocando a sua mão no puxador da entrada.

  • Um dia irei viver lá.

José sorriu e pensou na única vez que tinha estado em Paris, junto com os seus Pais. Na verdade tinha sido a última viagem que tinham feito os três juntos. 

O tempo que tinha passado na cidade tinha sido tão curto que não lhe permitia emitir nenhuma opinião sobre o assunto mas, ainda assim, disse antes de entrarem no restaurante. 

  • Vamos conhecer-nos melhor em Paris?

Abriu a porta do restaurante com uma mão, fazendo um gesto com a outra para que Maria passasse à sua frente. 

Entraram e estava bastante mais quente do que fora. Tiraram os cachecóis , os casacos e, sem poder evitar, José reparou como eram bonitos os seios de Maria.

Provavelmente por se ter demorado mais alguns milésimos de segundo no olhar, era óbvio que ela tinha notado o seu ar de surpresa e simultaneamente de desejo.

Quando os olhares se voltaram a cruzar, não encontrou embaraço ou mesmo reprovação. Pelo contrário, o sorriso de Maria emoldurou o pequeno silêncio entre eles, tornando-o num dos primeiros momentos de ouro das suas vidas. 

Sem nada melhor para ultrapassar a situação, José voltou para uma zona de conforto e perguntou.

  • Como é viver e estudar em Santiago de Compostela? 
  • É bom, há uma energia especial nesta cidade, existe sempre algo a acontecer, e quando não são estudantes são peregrinos.

Depois de ter feito uma pequena pausa, como que se as palavras fossem um bem escasso que era importante preservar, acrescentou. 

  • É a energia que vem da velha Catedral. As suas pedras milenares falam em silêncio para quem as quer escutar.

O que sempre lhe tinha desconcertado em Maria eram as suas tiradas de sabedoria imprópria para quem não tinha mais de vinte e poucos anos. Ficava louco de paixão e só desejava mais.

Da música passaram a Deus e de Deus ao Amor*, voltaram a Espanha e seguiram em direcção ao que pensavam um sobre o outro desde o dia em que se tinham conhecido nas famosas fogueiras de San Xoan.

* A palavra amor (do latim amor) presta-se a múltiplos significados na língua portuguesa. Pode significar afeição, compaixão, misericórdia, ou ainda, inclinação, atracção, apetite, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido, etc. O conceito mais popular de amor envolve, de modo geral, a formação de um vínculo emocional com alguém, ou com algum objecto que seja capaz de receber este comportamento amoroso e enviar os estímulos sensoriais e psicológicos necessários para a sua manutenção e motivação. É tido por muitos como a maior de todas as conquistas do ser.

Os olhos já não faziam esforço algum em evitarem-se, estacionados uns nos outros continuaram lado a lado até as suas almas se começarem a tocar. 

Nesse trajecto até à sobremesa, tinham já feito inúmeras “viagens” sem que, falando directamente de sentimentos, fosse possível mostrar o que cada um sentia.

José tocou por engano nos dedos de Maria, ou talvez não, e de seguida voltou a fazer o mesmo movimento acabando por lhe agarrar a mão. 

– Conheces o muro do amor, em Paris?

Maria olhava fixamente os olhos de José. Não era uma pergunta, era uma porta para uma dimensão desconhecida que se abria diante de si. 

O pensamento livre da coerência que estes momentos costumam exigir ficou a milímetros de arriscar a tirada de que o único muro que conhecia era o de Berlim, mas esse já tinha caído. Felizmente a boca ficou fechada.

– Se algum dia me perderes é lá que me podes encontrar.

Maria olhava fixamente para José.

– Não te esqueces disso?

Não foi capaz de dizer nada, nem ela tão pouco. No entanto, primeiro com força e depois apenas com carinho, deixou a sua mão continuar a segurar na de Maria.

Lentamente em movimentos circulares começou a massajar com o seu polegar a palma da sua mão, e foi assim que em silêncio lhe disse que ela era o seu futuro, o seu passado e porque o Universo sussurrava o seu nome, o maior presente.

Sem necessidade de traduções ou interpretações, a noite ficou maior e o restaurante onde estavam o local mais pequeno do mundo.

Sem lugar para mais do que duas pessoas e um punhado de oxigénio, pediram a conta, pagaram e saíram de volta para as ruas milenares. Tinham acabado de entrar para a história dos caminhos de Santiago.

Continuaram em silêncio, mão na mão em direcção ao apartamento de Maria que ficava na rua Rosalía de Castro*, mítica poetisa galega, que os acolhia naquela noite que ainda estava prestes a começar.

Ao saírem da parte velha já no final da rua do Franco, José reparou no último bar antes de se entrar no grande passeio da Alameda. Chamava-se Dakar. 

Na sua cabeça o mítico rally** tinha ganho outro sentido.  

*Rosalía de Castro – Nasceu em Santiago de Compostela, 21 de Fevereiro de 1837 — e morreu em Padrón em 1885. Foi uma das maiores escritora e poetisa galegaConsiderada como a fundadora da literatura galega moderna, o 17 de Maio, Dia das Letras Galegas é feriado por causa de ser a data de edição da sua primeira obra em língua galega, Cantares GalegosRosalía de Castro nasceu em Camiño Novo, um arrabalde de Santiago de Compostela, sendo baptizada com os nomes de Maria Rosalía Rita. No registo do Hospital Real de Santiago de Compostela figura como filha de pais desconhecidos.

Sua mãe, María Teresa de la Cruz de Castro, fidalga da casa grande de Arretén pertencente à linhagem dos Castro, estabelecida na Galiza desde a Idade Média. Considerada tradicionalmente filha de José Martínez Viojo -embora não exista documentação que acredite este facto, um sacerdote católico de trinta e nove anos que, devido à sua condição, não pôde reconhecer nem legitimar a sua filha.

** Rally Paris-Dakar - The Dakar Rally (or simply "The Dakar"; formerly known as the "Paris–Dakar Rally") is an annual rally raid organised by the Amaury Sport Organisation. Most events since the inception in 1978 were from Paris, France, to Dakar, Senegal, but due to security threats in Mauritania, which led to the cancellation of the 2008 rally, the 2009 Dakar Rally was run in South America (Argentina and Chile).[1] It has been held in South America each year since 2009.[2][3] The race is open to amateur and professional entries, amateurs typically making up about eighty percent of the participants.

Despite its "rally" name, it is an off-road endurance race, properly called a "rally raid" rather than a conventional rally. The terrain that the competitors traverse is much tougher and the vehicles used are true off-road vehicles rather than the modified on-road vehicles used in rallies. Most of the competitive special sections are off-road, crossing dunes, mud, camel grass, rocks, and erg among others. The distances of each stage covered vary from short distances up to 800–900 kilometres (500–560 mi) per day.

– 24 – A menina dança ?

Após a partida de Miguel ainda antes do meio dia, José saiu do apartamento e passou boa parte da tarde sozinho a andar pela parte antiga da cidade, enquanto Maria estava na Universidade.

Utilizou a melhor técnica para se descobrir algo que se não conhece: Vagueou, perdendo-se propositadamente sempre que uma pequena rua lhe parecia menos óbvia.

Foram horas caminhando por cima de pedras de calçada tão antigas como a memória do tempo, tentando apreciar o que tinha à sua volta. 

Por cada minuto que passava, pensava na chegada da noite, pensava no que queria dizer a Maria quando estivessem juntos e na melhor forma de o fazer se estivesse à frente das suas amigas e amigos. 

Gostaria de sair só com ela, caminhar por aquelas mesmas ruas, gostaria que ela lhe mostrasse os seus locais preferidos e risse consigo.

Depois de várias voltas, acabou por se encontrar na Praza de Obradoiro*, caminhou até ao centro da Praça, virou-se e ali à sua frente, com mais de 70m de altura, vivia a catedral de Santiago.

Do que se lembrava de ter lido, depois de ouvir os comentários de Maria sobre os peregrinos, a Catedral teria sido várias vezes construída para logo depois ser destruída e pouco depois novamente reconstruída, enfim, um clássico na história da humanidade.

Voltou ao apartamento de Maria perto das 19h00. Tinham combinado sair todos para jantar e embora não quisesse dar a entender que era uma noite única e especial, queria aparecer com a sua melhor roupa e parecer que tinha acabado de chegar da rua.

Não tinha memória de alguma vez uma rapariga o ter feito sentir tão nervoso. Era estranho, mas simultaneamente uma óptima sensação.

* A Praça do Obradoiro é a principal e mais famosa da cidade de Santiago de Compostela, capital da Galiza. Nela destacam-se edifícios emblemáticos como o Paço de Raxoi, o Hostal dos Reis Católicos e a própria Catedral de Santiago de Compostela.

A porta de entrada da rua estava aberta e subiu até ao 5º piso. Quando ia bater à porta, percebeu pelas vozes que falavam por trás da mesma que já estava alguém em casa. 

Ao entrar, para além das duas colegas de piso, Chiara e Letizia, estava também um amigo chamado, Sancho*, embora neste caso fosse bastante magrinho, logo, sem pança.

Percebeu que tinha vindo interromper um daqueles momentos que apenas as mulheres conseguem verdadeiramente compreender. 

Corriam do quarto para a casa de banho e novamente para o quarto entre sorrisos e gritinhos cada vez que apareciam com uma roupa diferente ou experimentavam uns sapatos com outra cor, ou então colocavam algo que só mesmo elas poderiam ver. Confessou para si mesmo que tudo lhe parecia um pouco igual. Estavam todas giras e pronto. 

Sentou-se no sofá da sala, que ficava entre um dos quartos e a casa de banho enquanto fazia de conta que lia algo interessante e que supostamente lhe fazia mergulhar a atenção entre as páginas. 

A tentativa estava no entanto condenada ao fracasso tendo em conta a quantidade de pernas, collants e decotes do tamanho da sua imaginação que teimavam em passar em frente à sua visão periférica.

Só não percebeu porque é que o Sancho “sem pança” podia estar com elas naquele final de tarde entre mudas de roupa e a ele apenas lhe disseram para esperar na sala. Life is not fair, pensou. 

Como é tradicional em Espanha, já passava das 21h30 quando sairam para jantar. José estava com uma fome capaz de produzir visões. 

Na verdade não eram visões, eram três lindas mulheres que caminhavam à sua volta pelas ruas de Santiago que, fazendo-o sentir como um actor de cinema a caminho de uma Premiere, só faltava mesmo a carpete vermelha. Mas enfim não se pode ter tudo.

* Sancho Pança (em castelhano Sancho Pannizaa) é uma personagem do livro Don Quixote de la Mancha, conhecido apenas como Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Actua como um personagem contraste ao personagem principal, o próprio Dom Quixote. Enquanto Quixote é sonho, é fantasia, Sancho é realista. Na medida em que o relato avança, Sancho, aos poucos, vai aceitando os "delírios" do cavaleiro de quem é o fiel escudeiro. Finalmente, não se pode pensar em Dom Quixote, sem ter junto o notável e comilão Sancho Pança.

O primeiro erro da noite, foi a primeira bebida, mais a segunda, a terceira e as outras, antes mesmo da comida aterrar na mesa. Quando esta chegou já o seu cérebro tinha partido para parte incerta. 

Maria estava absolutamente deslumbrante, os seus cabelos ruivos compridos caídos pelas costas e a sua pele absolutamente branca salpicada por fantásticas sardas ruivas. 

Talvez por ser a rapariga que fazia anos, parecia brilhar no meio de tanta confusão. O próprio barulho de fundo ficou cada vez mais fundo. Quanto a José, levitava nos seus próprios pensamentos.

Enquanto lutava por se manter em pé, tentou algumas vezes chegar à fala com Maria, mas a porra da língua espanhola é tramada, especialmente quando se tem a língua enrolada numa dezena de Estrella Galicia*.

A distância entre pensar num idioma e falar em outro é quase a mesma de se ir até à lua, e José naquela noite não tinha nenhuma nave espacial. 

Finalmente, conseguiu colocar os dois pés no chão em posição paralela o que lhe permitia caminhar em frente sem cair. 

Passo a passo, foi até ao centro do bar que naquele momento mais parecia uma pista de dança. À medida que a noite avançava, foram-se retirando as mesas e cadeiras e ficaram apenas as pessoas que estavam a jantar, mais umas mil que entretanto foram entrando.

Maria, ao ver José caminhar na sua direcção, olhou de volta com mais atenção. Assim que os olhares se tocaram fez um sorriso daqueles, fazendo um gesto com a mão para a acompanhar na música que começava.

Respirou fundo, abriu os braços para a abraçar, pelo menos assim teria a certeza que não caía antes mesmo de começar o exercício.

Um passo mais, e era capaz de jurar que alguém lhe tinha pregado uma rasteira.

* Estrella Galicia is a brand of pale lager owned and produced by Hijos de Rivera.

A música era certamente bastante mais ritmada do que aquilo que José estava a tentar fazer. A sua cara ficou colada na cara de Maria, logo ao primeiro passo de dança.

Procurou colar os seus lábios no ouvido de Maria. Estava de tal maneira em outra dimensão que não tinha a mínima preocupação sobre o que ela ou alguém à sua volta iria pensar. 

  • Parabéns 

Terá dito com mais volume do que o necessário… 

  • Gosto muito que estejas aqui comigo – respondeu Maria alguns decibéis bastante mais baixos.
  • Eu também, embora não saiba muito bem onde esteja neste momento.

Largou uma gargalhada que só poderia ter sido lançada boca fora com a ajuda da quantidade de álcool que havia dentro do seu estômago, veias e devidas ramificações. 

Maria não respondeu, passou-lhe a mão pela nuca e puxou-lhe a cabeça mais para o lado até José ficar de frente para ela. 

Provavelmente se naquele momento tivesse dito algo não teria conseguido ouvir.

Pensou que deveria beijá-la naquele preciso momento, os olhos estavam dentro um do outro e como não sentia algumas partes do corpo achou que estava a voar baixinho, e como ao voar existem regras próprias, seria aquele o momento.

Poderia ter sido um camião TIR numa qualquer auto-estrada, vindo por de trás ou mesmo saltando o separador central da faixa contrária, mas neste caso foi mesmo o Sancho sem Pança que chegou pelo lado direito. 

Sem fazer sinal de luzes apalpou a nádega esquerda de José e este ao virar-se na mesma direcção perdeu o centro e o equilíbrio do que estava a fazer antes. 

Sancho agarrou os dois braços de Maria e num passe de mágica começou a dançar com ela ao ritmo dos sons que saiam das colunas.

José por seu lado tentava perceber o que mais lhe tinha atrapalhado, se o roubo da mulher que estava à sua frente e por segundos prestes a ser beijada se o seu pudor de macho latino acabado de ser apalpado.

Antes do final da noite viria a perceber que não era um concorrente aos seus objectivos. 

Estava confundido, a única coisa que queria era sair daquela confusão. O desequilíbrio era medonho. Arrastou-se devagar e conseguiu chegar até ao bar. 

Ao aproximar-se do balcão ouviu alguém a falar inglês, o que o obrigou a parar e tentar sintonizar agora algo completamente diferente.

  • Hi,

Disse José num americano quase perfeito. 

  • Hello stranger.

Foi a resposta, fazendo-o recuperar a compostura depois da vergonha que tinha sentido segundos antes. Abriu bem os olhos preparando-se para responder. 

  • Are you with the birthday party?

Foi a melhor coisa que conseguiu dizer depois de perceber que estava a falar com uma rapariga linda, ou pelo menos que parecia ser linda. 

À noite “All cats are grey” algo que Thomas Lodge já sabia em 1596 quando escreveu um livro chamado – Margarite of America. Será que ela se chamava Margarite ? 

  • Depends, why do you ask?

Novamente a resposta obrigou-o ainda mais a pedir à sua cabeça que voltasse rapidamente a juntar-se ao resto do corpo.

  • Because I am in love with the birthday girl and dont want to make a fool out of myself in front of her friends.

Uma vez mais poderia ser o álcool a falar por José, pois aquele tipo de honestidade não era comum entre adultos, a não ser que não se conhecessem bem ou estivessem cheios de ethanol*.

  • Dont worry you already did, now it can only get better.

Se José fosse uma equipa de futebol a jogar a final da liga dos campeões, era como se estivesse a perder ao intervalo e sofresse um golo logo no início da segunda parte. Estava em desvantagem mas ainda tinha 45 minutos pela frente, o importante era não se deixar ir abaixo. 

  • Do you see that redhead beauty dancing with a character from Hair** the musical ? 

José fazia a pergunta apontando para o magote de gente que dançava na sua frente.

  • You mean, Sancho?

A resposta era obtusa, mas ao mesmo tempo interessante. Como é que ela conhecia aquele ladrão?

  • Yes, that one, with the jungle on top of is brain, if he has brains there. 
* Ethanol, also called ethyl alcohol, pure alcohol, grain alcohol, or drinking alcohol, is a volatile, flammable, colorless liquid. It is a psychoactive drug and one of the oldest recreational drugs. Best known as the type of alcohol found in alcoholic beverages, it is also used in thermometers, as a solvent, and as a fuel.

** Hair: The American Tribal Love-Rock Musical is a rock musical with a book and lyrics by James Rado and Gerome Ragni and music by Galt MacDermotA product of the hippie counter-culture and sexual revolution of the 1960s, several of its songs became anthems of the anti-Vietnam War peace movement. The musical's profanity, its depiction of the use of illegal drugs, its treatment of sexuality, its irreverence for the American flag, and its nude scene caused much comment and controversy.

Hair tells the story of the "tribe", a group of politically active, long-haired hippies of the "Age of Aquarius" living a bohemian life in New York City and fighting against conscription into the Vietnam War

Tentou ter alguma graça, mas pelos vistos não se tinha saído nada bem. A rapariga na sua frente olhava seriamente.

  • Do not worry with Sancho, he is in my literature class, a good friend and totally gay, he will not harm the birthday girl. 

Dito isto, virou-lhe as costas e José acabou por ficar literalmente a falar sozinho.

O melhor era não tentar mexer-se muito mais. Encontrou uma posição confortável recostada ao balcão e, usufruindo da dormência mental em que chapinhavam os seus pensamentos, pediu um cigarro a quem estava próximo e ficou entretido a ver os novelos de fumo rumarem até ao tecto.

Saíram da festa já era dia, percorrendo uma boa parte do trajecto até casa cantando o reportório que cada um sabia. Quando não sabiam, inventavam. 

Mesmo sem ter conseguido estar tão próximo de Maria como tinha desejado, estar ali, já era uma sensação fantástica, das melhores coisas que tinha na sua memória, como se todas as suas vidas pudessem caber dentro daquelas canções. Na verdade cabiam.

O ar fresco da manhã fazia promessas de uma mão cheia de oportunidades para quem tivesse a coragem de abrir o dia que estava prestes a começar. 

Calaram-se depois de saborear umas belas bolas com creme de uma pastelaria que tinha acabado de abrir as suas portas, sentiam-se mais mortos do que vivos. Era preciso recuperar as energias. 

Chegaram a casa enquanto a loja de brinquedos que ficava ao lado da entrada abria os estores. Àquela hora já não havia forças para brincar. Depositaram os restos mortais sem sequer puxar os cobertores e sem dizer muitas palavras. 

Com as persianas recolhidas, não havia forma de perceber o que é que o mundo estava a fazer lá fora. Honestamente, isso também não era relevante.

José acordou já passavam das 15h00, com aquele sabor dentro da boca de quem perdeu a conta do que se bebeu e uma dormência no cérebro muito para além do desejável. 

Conseguiu pensar em abrir os olhos, o que na verdade era um feito, mas nem se atreveu a fazê-lo em simultâneo. 

Pelo canto do olho, vi um bilhete manuscrito colocado em cima do relógio despertador. Com esforço, pediu ao seu braço esquerdo para se esticar e pegar no papel e com alguma dificuldade leu o que estava escrito.

– Querido José, espero que te tenhas divertido ontem á noite, mas ainda temos uma dança para terminar.

Volto perto das 18h30. Podemos ir jantar. Descansa. 

– Bicos*….Maria

 

*Bico –No caso em questão, creio ter sido uma referência ao ponto 4 (latim beccus, -i, bico, especialmente o do galo) s. m.

Parte córnea que remata a boca das aves (e também de alguns peixes, ex.: bico do peixe-agulha).

[Por extensão]  Ave doméstica.

[Figurado]  Boca.

[Figurado]  Beijo.

Extremidade saliente ou aguçada de alguns objectos... = PONTA

Aparo para escrever.

Extremidade de um queimador de gás (ex.: um dos bicos do fogão está entupido).

Dívida insignificante.

[Informal]  Princípio de bebedeira.

[Informal]  Pessoa que gosta de beber vinho.

[Informal]  Serviço remunerado que se faz para além do emprego habitual (ex.: o cunhado é mecânico e faz uns bicos de vez em quando). = BISCATE

[Calão]  O mesmo que felação.

– 23 – Espera

Passando próximo da Igreja de San Bartolomeu já próximo da estação de Tui, olhou para o relógio estrategicamente colocado sobre a fachada da farmácia central e constatou que pouco faltava para as 14h00, bem como para o ponto de solidificação da água.

Encolheu as mãos o mais que pôde dentro dos bolsos do casaco e seguiu para a gare central. Ainda tinha tempo, mas com o frio que estava, o melhor era procurar um lugar mais quente.   

A sua memória, voltava de uma viagem alguns meses atrás e embora não se conseguisse lembrar do momento em que Maria chegou ao restaurante e Miguel se começara a armar em imbecil, sabia que isso lhe tinha trazido paz, sabia que tinha sido feliz e isso, provavelmente bastava. 

Durante anos tentou estar a sós com ela, mas o máximo que conseguiu foram sempre mais ou menos pessoas à sua volta. Por mais que tentasse, o momento nunca chegara.

Uma vez mais ali estava ela, acabada de entrar no restaurante, vestida de negro, a sua pele muito branca salpicada por sardas ruivas, parecia brilhar, mais uma vez ali estava José e tanta gente pelo meio.

Quando na vida decidimos deixar de conduzir na direcção daquilo que achamos ser o certo de acontecer, Alguém lá em cima decide brincar com os nossos planos e com as nossas frustrações.

Durante o jantar tinha descoberto algo extraordinário e simultaneamente motivo de vergonha. 

Maria fazia anos no dia seguinte e convidava-os a ficar até sábado de manhã, iria fazer uma festa no dia seguinte e seria bom poderem ficar. 

Curiosamente naquela mesma noite, Miguel revelou-se de uma forma nunca antes vista por José. 

Bebeu até não mais poder, e no restaurante bem como no caminho até ao apartamento de Maria, era rara a rapariga que por ele passasse que não ouvisse um piropo ou algo mais.

Coincidência, ou talvez não, e sem que nada o fizesse prever, na sexta-feira de manhã Miguel disse que tinha telefonado para casa e infelizmente não ia poder ficar, tinha necessidade de estar no final da tarde em Lisboa.

José apenas soube mais tarde, que o abraço que Miguel lhe deu à porta do apartamento de Maria era um abraço ao jeito de um Judas moderno, pois nesse mesmo dia, ao regressar a Lisboa consumou uma traição profissional ferindo de morte a sua amizade. 

Com os pensamentos de volta à pequena estação de Comboios de Tui, ouviu pelo altifalante que se aproximava na linha 2, o comboio com destino a Santiago de Compostela, com paragem em Vigo. 

A espera era longa, mas agora menos, algumas horas mais e poderia estar novamente nos braços de quem amava. 

Pela janela da estação era evidente os efeitos secundários da folia que as aldeias por onde passava tinham sofrido na passagem do milénio.

 

– 22 – Por fim Santiago

A ideia era ficar essa mesma noite em Santiago. Seriam poucos mais quilómetros, permitindo acordar tarde no dia seguinte, dar uma passeio, conhecer a cidade que tanto José como Miguel não conheciam. Na verdade era a primeira vez que Miguel saía de Portugal.

Depois do almoço poderiam iniciar o trajecto de regresso a Lisboa, frescos e conduzindo sempre de dia, aliás, desde que José andava de bicicleta nunca gostava de conduzir à noite.

Deixaram a Auto via do Atlântico ao início da noite e entraram em Compostela pouco passaria das 20h00.

Rodeada por pequenas montanhas, Santiago parece mais pequena e insignificante do que realmente é, o mesmo acontecia com várias pessoas com que José se tinha cruzado na vida. 

Entrar numa cidade pouco ou nada conhecida é geralmente acompanhado por inúmeras voltas às mesmas ruas sem que geralmente o condutor dê conta, excepto quando os nomes e fachadas das lojas começam a tornar-se familiares.

Quando isso aconteceu, desistiram e estacionaram o carro. De seguida procuraram um restaurante que lhes parecia popular o que é fácil de encontrar. 

Em Espanha, e provavelmente em outros locais, significa um espaço com muita gente, muito barulho e já agora para termos a certeza de que se pode comer bem, com muito lixo debaixo do balcão, ou barra como dizem por aquelas paragens.

Sentaram-se e pediram alguma coisa para comer e beber enquanto esperavam que Maria fosse ao seu encontro.

Estavam bastante cansados, mas agora reconfortados com o caldo galego que lhes tinham colocado na frente.

O nervoso miudinho que tinha vindo a crescer à medida que se tinha aproximado de Santiago começou a fazer das suas José sem reparar colocou a sua perna esquerda a bater freneticamente como se fosse o baterista dos Iron Maiden no auge de um solo.

Sentia as costas doridas e a cabeça meio vazia. Esta parte não era novidade, mas a certeza de que estava prestes a rever a razão maior da sua viagem e de tantas outras viagens dentro de si, afastou de imediato o que quer que pudesse retirar a magia do momento que só os reencontros sabem fintar ao destino. 

  • Hola Viajantes, como foi a aventura para chegarem até aqui? 

Concentrados que estavam em devorar a comida deliciosa e a inventar conversa para preencher o momento, não se aperceberam da chegada de Maria.

Quiçá libertado dos anos concentrado nos estudos, Miguel olhou para Maria e não dando oportunidade a José de engolir o que tinha na boca respondeu como se já se tivessem cruzado várias vezes. 

  • Agora que estamos aqui ao pé de ti, uma maravilha, disse Miguel.

José não se importava de estar na presença de rapazes que conseguiam quebrar o gelo inicial e brilhar em frente a uma rapariga, mas este caso era diferente, esta era a sua Maria.

Teve vontade de lhe dar um murro no cimo da cabeça, tal era a lata de se estar a meter naquela relação, no entanto, ficou-se por um sorriso meio amarelo.