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– 23 – Espera

Passando próximo da Igreja de San Bartolomeu já próximo da estação de Tui, olhou para o relógio estrategicamente colocado sobre a fachada da farmácia central e constatou que pouco faltava para as 14h00, bem como para o ponto de solidificação da água.

Encolheu as mãos o mais que pôde dentro dos bolsos do casaco e seguiu para a gare central. Ainda tinha tempo, mas com o frio que estava, o melhor era procurar um lugar mais quente.   

A sua memória, voltava de uma viagem alguns meses atrás e embora não se conseguisse lembrar do momento em que Maria chegou ao restaurante e Miguel se começara a armar em imbecil, sabia que isso lhe tinha trazido paz, sabia que tinha sido feliz e isso, provavelmente bastava. 

Durante anos tentou estar a sós com ela, mas o máximo que conseguiu foram sempre mais ou menos pessoas à sua volta. Por mais que tentasse, o momento nunca chegara.

Uma vez mais ali estava ela, acabada de entrar no restaurante, vestida de negro, a sua pele muito branca salpicada por sardas ruivas, parecia brilhar, mais uma vez ali estava José e tanta gente pelo meio.

Quando na vida decidimos deixar de conduzir na direcção daquilo que achamos ser o certo de acontecer, Alguém lá em cima decide brincar com os nossos planos e com as nossas frustrações.

Durante o jantar tinha descoberto algo extraordinário e simultaneamente motivo de vergonha. 

Maria fazia anos no dia seguinte e convidava-os a ficar até sábado de manhã, iria fazer uma festa no dia seguinte e seria bom poderem ficar. 

Curiosamente naquela mesma noite, Miguel revelou-se de uma forma nunca antes vista por José. 

Bebeu até não mais poder, e no restaurante bem como no caminho até ao apartamento de Maria, era rara a rapariga que por ele passasse que não ouvisse um piropo ou algo mais.

Coincidência, ou talvez não, e sem que nada o fizesse prever, na sexta-feira de manhã Miguel disse que tinha telefonado para casa e infelizmente não ia poder ficar, tinha necessidade de estar no final da tarde em Lisboa.

José apenas soube mais tarde, que o abraço que Miguel lhe deu à porta do apartamento de Maria era um abraço ao jeito de um Judas moderno, pois nesse mesmo dia, ao regressar a Lisboa consumou uma traição profissional ferindo de morte a sua amizade. 

Com os pensamentos de volta à pequena estação de Comboios de Tui, ouviu pelo altifalante que se aproximava na linha 2, o comboio com destino a Santiago de Compostela, com paragem em Vigo. 

A espera era longa, mas agora menos, algumas horas mais e poderia estar novamente nos braços de quem amava. 

Pela janela da estação era evidente os efeitos secundários da folia que as aldeias por onde passava tinham sofrido na passagem do milénio.