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– 27 – Tenho medo

Dois meses antes, ao regressarem do jantar na parte antiga da cidade, e depois de terem conversado à volta da mesa que agora ficava para trás, José lembrou-se do que tinha acontecido depois de se terem deitado no cimo da cama do quarto da colega de Maria. 

José vivia um dilema desde que tinha saído do restaurante Paris, embora soubesse que não obrigaria Maria a fazer algo que ambos não quisessem.

Desligou todas as preocupações quando se beijaram depois de se deitarem sobre a cama. José achou que seria um caminho sem retorno, queria muito que fosse um caminho sem retorno, queria amá-la verdadeiramente em todas as formas que sabia e podia imaginar.

Sentiu no toque de Maria que o desejo era mútuo, e embora estivesse muito escuro, conseguia ver uns pequenos olhos azuis que lhe pareciam dizer algo que não compreendia. Não eram consistentes com tudo o resto.

Parou de beijá-la por instantes, e ao contrário das respirações ofegantes que preenchiam aquele momento, foi o silêncio que ocupou o espaço que restava no pequeno quarto. Era inevitável que falassem. 

Ele não sabia o que dizer, embora no fundo quisesse perguntar porque é que ela não queria continuar, quais eram os seus receios.

Não teve tempo para dizer nada. Os olhos que antes lhe pareciam pequenas luzes azuis eram agora imensos oceanos que vinham até si em torrentes de questões. 

Queria evitar a todo o custo o que estaria prestes a ouvir mas estava nos braços de Maria. Não podia fugir para lado algum e mesmo que pudesse, no fundo não o queria fazer. 

  • Sabes José, é a minha primeira vez e tenho medo…

As palavras de Maria tinham saído entrecortadas como se estivesse aterrada de receios em falar.

  • Quero muito estar contigo aqui, e quero muito que sejas tu, o primeiro, o único homem da minha vida, mas hoje apenas quero estar junto a ti.

Quando acabou de falar os olhos de Maria abriram-se ainda mais e em simultâneo o seu corpo pareceu desaparecer entre os seus braços. 

José não conseguiu dizer uma só palavra, limitou-se a abraçá-la o mais que podia e procurou encontrar um espaço dentro de si onde fosse possível pensar sem ser ouvido. 

Será que quando ela lhe disse que era a primeira vez, estaria ele a entender bem que ela lhe dizia que era virgem?

Parecia ter nos braços uma menina de 14 anos. Teve vontade de desaparecer…Como era possível?

Era capaz de jurar que com aquele estilo confiante, misto de rebeldia em cara de santa, já tinha ido para a cama com mais gajos do que ele tinha inventado em canções na sua guitarra.

Abraçaram-se ainda mais, acho até que choraram os dois e, mais cedo ou mais tarde, dormiram como se um só corpo estivesse naquela cama, um momento irrepetível embora não o soubessem naquela altura.