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– 28 – Flashback/Enfim Paz

Os passos no andar de baixo ficaram tão fortes que os podia ouvir dentro da sua garganta, estavam tão próximos, que achou melhor pôr-se direito numa posição quase natural de quem teve uma surpresa.

Desejava sentir-se menos parvo naquela situação em que estava, isto para além de ter o rabo enregelado e as hormonas a fazer um cocktail de esperma dentro da sua cabeça.

O som passou a vulto e o vulto passou a quem ele esperava. 

Mesmo no escuro, era fácil ver os seus olhos muito azuis quando ouviu: 

  • Hola José
  • Maria?

Como se estivesse à espera de ser encontrado ali mesmo.

  • Maria, estive quase uma hora na estação de comboios à tua espera, mas não estavas, não estava ninguém.
  • José, também eu estive mais de uma hora na estação de comboios, de baixo de um chapéu de chuva, esperando por ti, mas não te vi chegar, ninguém chegou.

Olhavam-se entre as sombras da luz das escadas que se apagara naquele instante.

– No tienes que mirar mas allá!

– Amo-te querida 

Antes de continuarem a falar tentando perceber o desencontro, já tinham feito as pazes com o destino.

Foi incrível perceber como o ser humano é capaz de ultrapassar situações extremas tanto físicas como psicológicas com uma simples mudança de observação. 

Todas as dúvidas, das mais profundas às mais simples, não apenas as de José mas também as de Maria tinham-se dissipado e apenas a presença de um em frente ao outro bastava.

No final, José tinha-se esquecido de fazer algo muito simples mas de vital importância quando mudamos de País. Não tinha adiantado o seu relógio o que queria dizer que tinha estado uma hora antes do combinado esperando por alguém que apenas deveria chegar uma hora depois.

José sentia-se um completo anormal ao perceber que tinha sido demasiado rápido a julgar, a criar factos novos e logo depois novas realidades. 

O segredo de uma vida feliz passa por uma separação entre as coisas que nos acontecem e nós próprios. Os acontecimentos não somos nós. 

Entre a escuridão que os rodeava no hall de entrada, existia apenas felicidade.

Viviam novamente! O relógio e o tempo que anteriormente tinham feito misérias, eram agora o maior aliado. 

Tinham três dias repletos de segundos, horas e minutos, à espera de serem abertos, vividos e nada mais. Não havia outras preocupações para além de receber e dar prazer um ao outro. 

Momentos de total perdição que ambos tinham desejado, levando a sua paciência aos limites da paciência, mestres de um amor masoquista.

Entrelaçaram os dedos sem que os pés tocassem o chão que os separava da entrada ainda escura do quarto de Maria e entraram.