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– 14 – En el dia en que todo ocurrió

En el dia en que todo ocurrió

 

A noite terminou com o dia, o ar fresco que se levantava da ria ajudou a extinguir as brasas das fogueiras. 

Cada um dos convivas no regresso a casa sentia viver entre os espaços que os minutos vão deixando perdidos no tempo, tentando enganar os donos dos relógios e até mesmo quem não os tem.

José não conseguia deixar de pensar naqueles olhos azuis e em tudo o que encerravam dentro de si, tinha um nome – Maria – mas o tempo que tinha para saber algo mais estava a terminar.

Caminhando em grupo, foram-se aproximando da casa de cada rapariga e depois de garantir que entravam em casa, continuavam a sua peregrinação para a casa seguinte.

Apercebeu-se pelas palavras da rapariga que caminhava ao seu lado que a casa de Maria estava próxima, e que se não tivesse uma ideia brilhante nos minutos seguintes provavelmente a sua volta ao mundo nunca chegaria a ser feita com a mulher dos olhos azuis.

Estávamos em 1996, ninguém naquele grupo sabia o que era um e-mail e ainda menos tinham computadores em casa. Os telemóveis hoje peças de vestuário banais, eram então pesadas peças de luxo inacessíveis.

Respirou fundo e percebeu que este era um daqueles momentos em que não podemos ficar a dever nada à vida que nos é dada. 

A manhã estava bem fresca mas sentia um calor enorme que lhe percorria as costas até ao centro da sua cabeça.

Abriu um botão da camisa, se fossem dois poderia ter sido mais problemático, acelerou o passo

Fechou os olhos e o que viu foi maravilhoso. Não eram imagens definidas, mas sombras projectadas pela luz tímida de uma pequena vela. Fechou os olhos com mais força ainda e conseguiu ouvir uma música que nunca tinha escutado mas que pedia para ser tocada uma e outra vez.

Respirou fundo e sorriu por dentro e por fora. Sentiu passar pela sua cara o vento que subia das rias baixas e o dia de repente tinha ficado claro, olhou para a rapariga que continuava a caminhar ao seu lado, sacudiu a areia que tinha no cabelo e disse baixinho

  • Tenho de ir…

Acelerou o passo e percorreu a parte do grupo que o separava de Bea, Lúcia e Maria que caminhavam na frente.

Nenhuma das três tinha reparado na sua presença e continuavam a rir bem alto.

A brisa que uns minutos atrás o tinha empurrado para a frente parecia agora estar a soprar em direcção contrária. Sentiu-se o maior parvalhão do mundo e pensou que nunca deveria ter deixado o lugar insignificante onde estava, na traseira do grupo.

Quando se preparava para desacelerar o passo de forma a desaparecer silenciosamente algures na rua que ficava deserta para trás, a mão de Maria pegou-lhe no braço e puxou-o para si.

  • Não me vais pedir para me casar contigo e fugir para dar a volta ao mundo pois não?

Entre os risos das amigas e os olhos tremendamente brilhantes de Maria, José quase que deixou de respirar, era preciso reagir rápido.

  • Daqui a uns anos talvez, mas primeiro temos de ser namorados.

Fechou a frase com uma enorme gargalhada que felizmente teve sequência nas três amigas.

  • Vou levar o teu caso às Nações Unidas, José. Chamas-te José não é ?

Por incrível que pudesse parecer Maria sabia o seu nome. Ele existia na vida da rapariga mais bela com quem alguma vez se tinha cruzado.

Começou a chover no momento em que os seus olhos se fundiram. Era absolutamente indiferente se estavam três ou três mil pessoas à sua volta, não ouviam nada e não diziam nada.

Continuaram assim até que José sentiu o braço de Maria apertar contra o dele com bastante mais força, e só saiu daquele transe quando todos pararam.

Chegaram a casa de Maria e a chuva caia agora sem misericórdia nas suas cabeças. O caminho terminava ali.

O vento voltou a soprar mais forte e a coragem que tinha faltado uns momentos antes regressava ao ponto de conseguir respirar e aperceber-se disso.

Trocaram moradas e números de telefone antes de ela entrar. Não disseram muito mais e José não acompanhou o grupo na marcha que se seguiu.

Sentou-se num degrau próximo e ficou ali a saborear as lágrimas de alegria que caiam na sua cabeça e que lentamente se misturavam com as suas.

Maria chegou rapidamente ao final do colégio e quase não deu por passar o verão mais longo dos últimos anos, vivido entre a praia de Cangas e as festas na cidade.

Em Setembro daquele mesmo ano já estava a entrar na porta central da Universidade de Filologia e Tradução do Campus de Lagoas – Marcosende às portas da Cidade.

Foi naquela baía de contradições que Maria cresceu, tomando o seu Pai como exemplo máximo de vida , ao ponto de ser impossível um homem ambicionar estar naquela posição.

Vigo sabe Amar!