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– 2 – Monika Lavova

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Monika Lavova

 

Quando Monika nasceu nos arredores de Bratislava, os seus primeiros passos já estavam predefinidos pela temida State Security Organization ou, se preferirmos, a omnipresente StB*.

A Mãe de Monika, Ata Lavova que, antes de o ser, chamara-se Ata Svitakova nos tempos de solteira. Era no mínimo a jovem mais bonita de Rovinka, que ficava às portas de Bratislava e não muito longe da fronteira com a Hungria.

Ata deveria ter sido muito mais do que bonita. Por onde passava deixava marcas profundas nos corações de quem cometia o erro em se apaixonar por ela!

Ata adorava o ideal comunista e tudo o que isso representava na sua vida. Aos 10 anos era líder da sua unidade dos Pionyrska Organizace Socialistickeho Svazu Mladeze**, ou PO SSM como eram carinhosamente apelidados.

Mas Ata também cometia os seus erros.

Mesmo com inúmeras actividades desportivas e debates acalorados sobre o estado da união, o coração deu mostras de ser mais forte que a cartilha por todos seguida.

 

* StB - In former Czechoslovakia, State Security (Czech: Státní bezpečnost, Slovak: Štátna bezpečnosť) or StB / ŠtB, was a plainclothes secret (political) police force from 1945 to its dissolution in 1990. Serving as an intelligence and counter-intelligence agency, it dealt with any activity that could possibly be considered anti-communist.

**Czech Young Pioneers - The Czech Pioneer movement was similar to similar organizations created in Eastern European countries. Like other countries, the uniforms were quite simple, dominated by red scarves.

After the Soviet occupation in 1968 there were major changes in the Czech Government and Communist Party. One of these changes was that all children's organizations were forced to unite in a new organization, the PO SSM. Those that refused, which was not advisable, had to disband.

The popularity of the Pioneers in Czechoslovakia is difficult to assess. One Czech observer, tells HBU that, "It's impossible to say popular or unpopular." From 1970 there was no alternative in the former Czechoslovakia. All children were Pioneers. Very few children did not participate, it was virtually mandatory. 

 

Apaixonou-se pelo rapaz mais bonito, que conheceu no campo de férias desportivas em que tinha participado na estância balnear gigante do partido comunista na Crimeia, mais conhecido como Artek***.

Desde esse dia nunca mais viu o seu coração, que entretanto partira com o rapaz e com ele toda a pureza dos seus dezasseis anos acabados de fazer.

No regresso à Checoslováquia, sabia que daí em diante não se voltaria a apaixonar, devotaria a sua vida ao ideal comunista que sabia que nunca a poderia trair e encontraria um rapaz que não fosse nem bonito nem feio, mas que fosse leal e ambicioso.

Josef Lavova, o Pai de Monika, era estudante finalista do curso de Medicina. No início dos anos 70, os últimos anos da especialidade de ortopedia eram feitos por todos os alunos do País na Universidade da capital.

A recém-formada família sabia que os últimos três anos do curso seriam particularmente difíceis, tendo tomado a opção de ficarem Ata e a pequena Monika em Bratislava, e Josef no dormitório da Universidade em Praga fazendo o trajecto entre as duas cidades no máximo duas vezes por mês.

Curiosamente, Josef, depois de terminar os estudos, continuou a trabalhar no Hospital central em Praga embora viesse todas as sextas-feiras passar o fim de semana com a família em Bratislava.

O mês de Agosto era passado religiosamente nos melhores sanatórios que o País tinha para oferecer aos melhores e mais esforçados cidadãos da República Socialista da Checoslováquia.

 

*** Artek (Cyrillic: Арте́к) is an international children center (a former Young Pioneer camp) on the Black Sea in the town of Hurzuf located on the Crimean peninsula, near Ayu-Dag. It was established on June 16, 1925. The center is part of the State Management of Affairs.

The camp first hosted only 80 children but then grew rapidly. In 1969 it had an area of 3.2 km². The camp consisted of 150 buildings, including three medical facilities, a school, the film studio Artekfilm, three swimming pools, a stadium with a seating capacity of 7,000, and playgrounds for various other activities.

Artek was considered to be a privilege for Soviet children during its existence, as well as for children from other communist countries. During its heyday, 27,000 children a year vacationed at Artek. Between 1925 and 1969 the camp hosted 300,000 children including more than 13,000 children from 70 foreign countries.

 

Monika sentia-se agradecida aos esforços do Pai que praticamente não a tinha visto crescer, e compreensiva ao ponto de aceitar que a vida era assim porque fazia sentido ser assim.

Por força genética ou puramente por teimosia da sua Mãe, Monika foi também ela brilhante em quase tudo com que se envolvia, na escola, no desporto, nas artes, com as amigas e mais tarde com os namorados.

Idealista, ao ponto de ter sonhado fazer parte do Komsomol*, viu no entanto os seus planos trocados quando se preparava para fazer as malas e ir estudar em Moscovo.

O seu Pai, Josef, teve de regressar a casa para ser tratado em virtude de um acidente de automóvel que quase lhe tirara a vida.

Mãe e filha fizeram todo os esforços para o ajudarem ao ponto de Monika ter optado por atrasar a entrada na universidade.

Os dias passavam-se entre os dois turnos que mãe e filha desdobravam ininterruptamente junto da cama de Josef.

Depois de verem o Pai minimamente recuperado aperceberam-se que realmente algo lhe tinha sido retirado, ou partido, para além das seis costelas e quatro dentes do lado esquerdo.

Monika tinha crescido entre os pátios tipicamente soviéticos que se abriam entre cada bloco de apartamentos e o Palácio da Cultura** onde a sua mãe Ata se tinha devotado*** a criar todas as condições para o Homem novo se poder desenvolver.

 

* The Communist Union of Youth - usually known as Komsomol (Russian: Комсомол, a syllabic abbreviation from the Russian Kommunisticheskii Soyuz Molodyozhi), was the youth division of the Communist Party of the Soviet Union.

Smoking, drinking, dancing, religion, and any other activity the Bolsheviks saw as threatening were discouraged as “hooliganism”. The Komsomol sought to provide them with alternative leisure activities that promoted the improvement of society, such as volunteer work, sports, and political and drama clubs.

** Palace of Culture - was the name for major club-houses in the former Soviet Union and the rest of the Eastern bloc. It was an establishment for all kinds of recreational activities and hobbies: sports, collecting, arts, etc.

*** Devoção - s.f. Piedade, sentimento religioso; dedicação ao culto de Deus e dos santos.
Respeito, afeição, dedicação.

 

Durante quase vinte anos foi a Riaditel* na zona próxima da Novy Most, que ao que consta ainda ostentaria o famoso Bystrica** na sua zona superior.

Tudo mudou no entanto, no final de 1989, altura em que a morte de Martin Smid*** que afinal não tinha morrido, acabou por precipitar o fim do sonho de muitos, e o inicio das aspirações de outros tantos até então impensáveis.

Quanto a Monika, a sua vida era tão popular quanto Zhanna Aguzarova**** na ex-União Soviética.

 

* Riaditel - head of company is Slovakia is "riaditel" 

** Bystrica - A special attraction is its flying saucer-shaped structure housing a restaurant, called "UFO" (since 2005; previously called Bystrica), on the bridge's 84.6 metre pylon. The restaurant is reached using an elevator situated in the left pillar.

*** Martin Smid - Martin Šmíd was a fictitious Czechoslovak university student, who was supposedly killed in the police attack on the November 17, 1989 student demonstration in Prague that launched Czechoslovakia's Velvet Revolution.

The rumor of Šmíd's death was spread by Drahomíra Dražská, a porter at a student dormitory in the city's Troja district. The dissident Petr Uhl believed the report and passed it along to Radio Free Europe, which broadcast it. The news of a student's death shocked many, and the rumor is thought to have contributed to the fall of the Communist regime in Czechoslovakia.

**** In the mid-'80s the Russian singer Zhanna Aguzarova put a dent in the flat Soviet backdrop with her powerful voice and unapologetic persona. First as the vocalist of the group Bravo and later as a solo artist, her irreverent style and eccentricity made her a symbol of individuality and dissent. Aguzarova was insolent in the face of the oppressive regime, but her voice, full of longing and romanticism, thrilled millions of fans. But Aguzarova remained a mystery, one day taking off without warning for Los Angeles, the next claiming to communicate with Martians. Fans loved her for her incongruities and took every opportunity to turn her shadowy and improbable biography into legend.