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– 6 – 29 de Dezembro de 1989

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29 de Dezembro de 1989

 

As mudanças políticas na Checoslováquia que se seguiram ao colapso do pacto de Varsóvia fizeram com que o final do ano fosse a maior festa em que alguma vez Monika tivesse participado, sem que primeiro tivesse que passar pela angústia da verdade.

O regresso do seu Pai a casa aconteceu pouco antes dos acontecimentos iniciados em Bratislava na quinta-feira, 16 de Novembro, com a demonstração pacífica de estudantes que percorreu a cidade.

Foi com enorme angústia que se assistiu na sua casa ao desmoronar como um castelo de areia de tudo o que tinha ouvido, acreditado e vivido em especial da parte da sua Mãe.

O Pai, um quase estranho na vida de Monika que já tinha completado os seus 16 anos, estava finalmente em casa, com as duas pernas e os dois braços partidos, uma verdadeira ironia para um ortopedista.

Foi um exercício de Catarse*, o que Monika e Ata viveram em conjunto nos meses que se seguiram até ao dia** em que Václav Havel foi nomeado Presidente da Checoslováquia. 

Da confusão inicial por não perceberem a razão da revolta, ao medo que sentiram quando se identificaram com as reivindicações dos protestantes e finalmente no orgulho em contribuírem com os seus gritos para engrossar a voz dos descontentes.

Os dias começavam cedo com reuniões espontâneas nos pátios que definiam a geometria do bairro, seguido de peregrinações até onde fosse necessário.

 

* Catarse - do grego "kátharsis" é uma palavra utilizada em diversos contextos, como a tragédia, a medicina ou a psicanálise, que significa "purificação", "evacuação" ou "purgação". Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama.

** The victory of the revolution - was topped off by the election of rebel playwright and human rights activist, Vaclav Havel, as President of the republic (December 29th). Free elections held in June 1990 legitimized this government and set the stage for the changes needed to deal with the remnants of the Communist party’s power and the legacy of the Communist period.

  

Mais de um milhão de pessoas saíram às ruas a exigir a demissão do camarada* Miroslav Stepán. Nesses dias a relação entre elas passou para uma nova dimensão que só quem atravessa revoluções algum dia poderá sentir.

No início de Janeiro, ao voltarem para casa depois de terem estado ao lado de outros milhares que saudaram nas praças das cidades checas a chegada do novo ano, repararam num enorme aparato de carros de policia logo no início da sua rua.

Por aqueles dias não era uma novidade, em tempos de mudança as purgas** de quem antes estava sentado na cadeira*** eram cada vez mais comuns e mais seriam daí para a frente, especialmente de todos aqueles que estavam directamente implicados na tortura e morte dos opositores do regime.

A novidade foi perceberem que no prédio em que moravam, o marido e Pai, Josef Lavova, saía cabisbaixo e algemado, coxeava escoltado por vários agentes da recém-formada polícia.

Não foi fácil aceitar que ao longo dos meses que durou o julgamento de Josef, o mais próximo que ele tinha estado da ortopedia foi quando ao contrário da história que contara, quase morrera dentro de uma cela de tortura fruto da reacção de um ex-boxeur ao seu interrogatório e tenha acabado com os braços e as pernas partidas.

Foram mais de vinte anos a viver numa pele que não era a sua, de forma a poder expiar livremente a vida dos outros.

 

* Camarada - Depois da Revolução Russa de 1917, os comunistas empregaram-no profusamente como alternativa igualitária à forma de tratamento "senhor" e outras palavras similares.

O termo podia acompanhar títulos para dar a eles um teor socialista, como por exemplo em Camarada General para dirigir-se a um general de exército.

Este uso tem seu antecedente na época da Revolução Francesa, quando a abolição dos títulos de nobreza e dos tratamentos monsieur e madame ("senhor" e "senhora", respectivamente) foi seguida do emprego da forma citoyen (cidadão).

** Purga – (de purgar), s.f. medicamento ou substância que faz purgar. Purgar (do lat. Purgare), v. Tr, tornar puro; limpar; purificar; desembaraçar os intestinos; livrar do que é nocivo.

*** Cadeira do poder – O lugar de quem está ao lado de quem governa ou manda efectivamente.

 

No Hospital fazia-se passar por médico, tentando descobrir conspiradores, e na relação com Ata onde se fazia passar por marido.

Desde o momento em que ela tinha tido um caso de amor com um jovem dissidente referenciado, a sua vida passou a ser também a vida da famosa StB, e na vida queremos os amigos perto mas os inimigos ainda mais.

Após o julgamento, o divórcio de Ala e Josef fora decretado e poucos meses depois, Mãe e filha tentavam iniciar uma nova vida.

Praga, a bonita Praga, que por ironia do destino nunca tinham visitado, porque Josef não tinha tempo para as receber, foi o destino escolhido, vida nova, cidade nova.

Monika jurou à sua Mãe que nunca na vida se iria casar e que tudo o que a mãe tinha sofrido ela iria viver de forma proporcionalmente oposta, seria profundamente feliz até ao último dia da sua vida.