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– 8 – Gravity

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 Gravity

 

Em meados dos anos noventa, para além de se ter tornado num frequentador assíduo dos locais nocturnos com maior afluência de almas perdidas como a sua, continuou a tocar e a progredir na sua guitarra.

José tinha um professor de música excepcional, de seu nome Silvano, provavelmente um dos melhores que havia no País, ou talvez mesmo no mundo. Por certo no mundo do aluno era assim. 

Silvano tinha ficado órfão de Mãe ainda jovem e por isso utilizou todo o sofrimento acumulado como forma de expiar os sacrifícios que exigiu às suas mãos. 

Quando atingiu o topo do reconhecimento pelo seu trabalho, era apenas uma questão de tempo para se tornar uma lenda da guitarra clássica à escala planetária. No entanto, ao invés de crescer, engordou.

José lembrava-se bem do dia em que tinha percebido a razão pela qual o seu mestre não desejou seguir mais além, ironicamente ou não, foi nesse mesmo momento que decidiu abandonar as aulas de guitarra.

Detestava cada vez mais o dia. Apenas a noite lhe trazia conforto.

A luz, o barulho das ruas, a energia excessiva em alguns casos ou histeria em outros era insuportável. 

O prazer em ficar sentado a escrever o que lhe vinha à cabeça nas toalhas de papel que cobriam as mesas das tascas e baiucas que frequentava, ouvir o que estava a tocar, e deixar-se estar, tornaram-se os seus momentos de ouro.  

O tempo para a Universidade era cada vez menor. Na verdade nunca tinha sido muito e, sem grande surpresa, os anos começaram a passar por cima da sua matricula que se mantinha inalterada no primeiro ano.

Para José tudo estava sempre bem, pelo menos aparentemente. Qualquer comentário ou reparo menos abonatório era quase sempre recebido com um sorriso e uma resposta tipo Dont worry be happy*.

A sua Mãe e alguns amigos começaram a preocupar-se com a sua incapacidade aparente em levar a sua vida para zonas mais próximas da linha que divide os loucos dos atinados. No entanto, não era de modo algum uma conversa fácil de se ter. 

Por isso, a sua relação com o mundo à sua volta pouco se alterou, à excepção das novas músicas que aprendia a tocar e, na sequência disso, as novas namoradas ou um nível abaixo dessa categoria que arranjava para, pouco tempo depois, aprender a tocar uma nova melodia.

Bastava olhar para as fotografias que mudavam no tampo de vidro por cima da secretária no seu quarto para perceber como crescia o repertório.

Quando tentava perceber as inquietações dos que o rodeavam, ficava perplexo com a falta de curiosidade que as pessoas tinham em descobrir mais sobre a vida e o que ela tinha reservado para cada um. 

Para não ter de continuar a ouvir as queixas, quase tinha vontade de concluir um qualquer curso universitário que fosse sério, arranjar um emprego sério e provavelmente ter um salário sério no final de cada mês.

Mas só a ideia de pensar em fazer tudo isso provocava-lhe falta de ar e tinha naquele mesmo instante de se levantar e dar uns passos para acordar do pesadelo. 

As vidas que desfilavam à sua volta pareciam todas elas feridas de um mal maior, uma espécie de multidão que caminhava com blocos de cimento atados aos pés, sem perceberem que tinham nos braços asas que lhes permitiam voar.

* "Don't Worry, Be Happy" is a song by musician Bobby McFerrin. Released in September 1988, it became the first a cappella song to reach number one on the Billboard Hot 100 chart, a position it held for two weeks. The song's title is taken from a famous quote by Meher Baba. The original music video stars Robin Williams and Bill Irwin.[3] The "instruments" in the a cappella song are entirely overdubbed voice parts and other sounds made by McFerrin, using no instruments at all.

 

Do liceu, lembrava-se de ouvir a professora explicar o sentido que a atracção gravitacional da terra* confere aos objectos, mas tudo lhe parecia uma enorme conspiração para nos manter a todos na ordem. 

Numa das muitas conversas sem fim num dos seus lugares predilectos, o Esboço, que ficava algures em Alfama**, cruzou caminho com antigos colegas da universidade. Tinham começado a fazer as suas primeiras exposições de pintura e escultura e aquele lugar era um dos favoritos para os novos talentos.

Em frente à mesa em que estava sentado, colocaram uma tela de grandes dimensões, ocupando toda a extensão da parede.

Ao som de East-West***, José tentava perceber a composição na sua frente, mas por mais que tentasse não conseguia terminar nenhum raciocínio.

De uma ponta à outra, a construção de uma imagem era repetidamente posta em causa pela imagem seguinte. Adorava aquele quadro.  

Foi até ao balcão perguntar se o quadro estava à venda e quanto custava. Não tinha forma alguma de o poder comprar, mas estava fascinado.

 

* A gravidade - é uma das quatro forças fundamentais da natureza em que objetos com massa exercem atração uns sobre os outros. Classicamente, é descrita pela lei de Newton da gravitação universal. Foi entendida de modo matemático pelo físico inglês Isaac Newton e desenvolvida e estudada ao longo dos anos.

Do ponto de vista prático, a atração gravitacional da Terra confere peso aos objetos e faz com que caiam ao chão quando são soltos no ar.

A gravitação é o motivo pelo qual a Terra, o Sol e outros corpos celestiais existem: sem ela, a matéria não se teria aglutinado para formar aqueles corpos e a vida como a entendemos não teria surgido. A gravidade também é responsável por manter a Terra e os outros planetas em suas respectivas órbitas em torno do Sol e a Lua em órbita em volta da Terra, bem como pela formação das marés e por muitos outros fenómenos naturais.

** Alfama - Is the oldest district of Lisbon, spreading on the slope between the Castle of Lisbon and the Tejo river. Its name comes from the Arabic Al-hamma, meaning fountains or baths

*** East-West is the second album by The Butterfield Blues Band, released in 1966 on Elektra Records, EKS. It was recorded at the famed Chess Studios on 2120 South Michigan Avenue in Chicago. It peaked at #65 on the Billboard pop albums chart. The tune was inspired by an all-night LSD trip that "East-West"'s primary songwriter Mike Bloomfield experienced in the fall of 1965, during which the late guitarist "said he'd had a revelation into the workings of Indian music.