Arquivo da categoria: -17- Happy Birthday

– 17 – Happy Birthday

O que não parava de aumentar era o seu desejo em fazer mais actividades, coisas diferentes que lhe pudessem proporcionar outras experiências, uma sede acumulada capaz de gerar uma energia que do sitio de onde estava lhe parecia infinita.

O Verão chegou, passou e foi substituído por um Outono mais quente do que a estação que partira.

No rés-do-chão do seu prédio, vivia ainda um velho amigo seu.

Miguel era filho da porteira do prédio e o seu pai era policia, acabando por ganhar a alcunha de filho da “Porticia”, as crianças podem ser cruéis.

José e Miguel costumavam encontrar-se todos os dias.

Miguel, durante anos, foi colega de equipa ou adversário, consoante o número de jogadores que se juntava no grande hall de pedra na entrada do edifício.

José era quase sempre o melhor jogador, embora detestasse correr atrás de elementos esféricos e passar a hora a levar e a dar empurrões. Miguel do outro lado parecia jogar com uma bola quadrada e adoraria ter o tamanho e o talento de José.

No início corriam atrás de um monte de folhas de papel enroladas e comprimidas com fita cola, geralmente testes antigos do Prof. Costa Terra, quando as guitarras tocaram mais alto, Miguel seguiu outro caminho.

José e Miguel começaram a encontrar-se menos.

Mais tarde, muito mais tarde, José entrou na Faculdade de Belas Artes e Miguel no Instituto Superior de Engenharia.

José e Miguel viam-se duas vezes por ano, quando o Rei fazia anos*: em Outubro no caso de Miguel e em Abril no caso de José.

O aniversário de Miguel era duplamente importante naquele ano, para além dos 23 Outonos, tinha conseguido terminar em cinco anos o curso de engenharia, um feito considerado exemplar, especialmente por quem demora mais de oito ou nove a fazer o mesmo.

À semelhança de todos os anos anteriores, os rituais de celebração que José se conseguia lembrar eram sempre os mesmos. Aquele não era excepção.

Haveria um lanche à volta da mesa de madeira maciça quase maior que a sala, um discurso da Dª Aurélia explicando que as dores de parto que tinha tido eram recompensadas por ter o melhor filho do mundo e depois os amigos, que nunca podiam ser mais do que o tamanho do quarto de Miguel, divertiam-se com as brincadeiras da época.

Naquele ano, o Pai de Miguel, que já não era novo, tinha feito um esforço desmedido para cumprir um desejo antigo do prodígio da casa; rebuscando as poupanças de anos, colocou no seu quarto um computador.

Os olhos da Dª Aurélia encheram-se de lágrimas e ao que parece até voltou a beijar o marido, algo que só encontrava paralelo no período revolucionário na década de 70.

José não tinha computador, mas trabalhava com vários na Universidade o que não lhe despertou grande emoção.

A surpresa daquela tarde estava no entanto para vir em forma de modem de 32 bits.

Miguel andava entusiasmado com uma coisa nova de contornos absolutamente imprevisíveis e na sua opinião que iriam definir o futuro da humanidade, a World Wide Web ou, para os mais ignorantes, a Internet.

* A frase/expressão «quando o rei faz anos» encontra-se registada em vários dicionários específicos desse tipo de expressões, como locução/expressão usada para designar muito raramente, espaçadamente; de vez em quando, ou em raras ocasiões.

Pediu aos amigos à sua volta que passassem para trás do ecrã. A demonstração estava prestes a começar.

Fez-se um silêncio, misto de emoção e nervoso miudinho, apenas interrompido segundo a segundo por uns sons meio abafados meio estridentes saídos da pequena caixa branca que por sua vez ligava a linha telefónica à parte de trás do computador.

Lentamente começou a aparecer uma imagem no pequeno ecrã que, pedaço a pedaço, se tornava parte de uma imagem maior. Ao chegar ao fim a surpresa era geral.

  • Meus amigos, isto é o futuro, é aqui que eu vou passar o resto dos meus dias.

Miguel falava com autoridade, o rapazito com pouco jeito para as raparigas e com mais borbulhas do que pêlos na cara, era hoje uma criatura diferente. O milagre da internet tinha-o transformado numa pessoa cool*.

  • A partir da nossa casa, podemos entrar em qualquer parte do mundo e ver coisas que até agora eram absolutamente impensáveis.

O recém-formado engenheiro continuava a abrir para os seus convidados todo o potencial das suas afirmações.

Quem não tinha ficado indiferente tinha sido José. Sem saber bem porquê, sentia que aquele era um momento para guardar e recordar mais tarde.

Ao olhar para aquela janela que por sua vez lhe abria a possibilidade de furar todos os limites da sua curiosidade, sentiu uma comoção que o obrigou a sentar-se em cima da cama e recostar-se para que aquilo em que estava a pensar não caísse para o chão.

* Coolness is an admired aesthetic of attitude, behavior, comportment, appearance and style, influenced by and a product of the Zeitgeist. Because of the varied and changing connotations of cool, as well its subjective nature, the word has no single meaning. It has associations of composure and self-control (cf. the OED definition) and often is used as an expression of admiration or approval. Although commonly regarded as slang, it is widely used among disparate social groups, and has endured in usage for generations.

Miguel, estava feliz, provavelmente a viver um dos melhores dias de sempre, com os pais realizados, os amigos rendidos e José esmagado pelas suas capacidades no seu próprio quarto. Aquele sorriso não iria sair da sua cara durante bastante tempo.

  • O que é que vais fazer agora que terminaste o curso?

José que parecia perdido no meio das almofadas encostadas à parede voltava à vida, tentando perceber o que tinham pela frente.

Miguel ficou surpreso, não era o tipo de comentários que estava habituado a ouvir do amigo do 3º Esq.

A mãe já lhe tinha comentado que desde que o pai, o Sr. Professor, tinha morrido, que algo se tinha passado na sua vida estava mais rapaz e até tinha começado a fazer a barba.

Antes de responder, Miguel olhou para José. Queria tirar as medidas da pergunta antes de mostrar a mão* que tinha guardada, não fosse necessário ter de se socorrer de um Joker.

Curiosamente, José fazia o mesmo movimento, olhava fixamente, desafiando a lógica construída na cabeça de Miguel ao longo dos anos.

  • Vou criar um empresa de internet e conquistar o planeta.
  • Porreiro, então vou ser teu sócio.

Resposta rápida e implacável de José. Estava mesmo diferente, pensou Miguel.

  • Combinado!
  • Quando é que começamos ?
* O Poker é jogado com um baralho de 52 cartas, apesar de alguns jogos usarem mais de um baralho e em alguns casos até os jokers. Os jokers são muitas vezes usados como trunfos, que podem ser usadas no lugar de qualquer carta de modo a ganhar uma mão.
Em termos gerais, todas as mãos incluem cinco cartas e a mão vencedora é aquela que possuir as cinco melhores cartas. Alternativamente, alguns jogos são ganhos com a melhor mão de cartas baixas, como em Hi/Lo por exemplo.

Bolas! Foi o que pareceu sair da sua boca, embora na verdade tenha sido algo mais próximo do vernáculo usado naquela rua.

  • Estás livre para a próxima semana?
  • Estou livre hoje.

Nem a técnica defendida de que o ataque é a melhor defesa parecia estar a resultar, quiçá Miguel tivesse de seguir algo mais próximo da máxima, se não podes vencê-los junta-te a eles.

A risada à volta do computador foi geral e total, entre comentários e palmadas nas costas, a festa de aniversário seguiu o seu curso normal.

Carlos Manuel, amigo de sempre, que ao invés de estudar tinha decidido seguir uma carreira de sucesso na frutaria do Sr. Pedro logo ali no início da rua, debruçou-se sobre o teclado e olhando seriamente perguntou a Miguel.

  • E gajas, podemos ver gajas?
  • As que quiseres, Carlos.

A resposta do dono da casa foi seguida de um frenesim próprio de quem finalmente tinha descoberto o que era a internet.

Enquanto as investigações terrenas prosseguiam pelas mãos dos aprendizes de feiticeiro, agora com a porta do quarto fechada, Miguel e José afastaram-se um pouco.

  • Falavas a sério?

Miguel queria tocar com os pés no chão.

  • Sim, muito a sério mesmo, podes contar comigo.

Naquela tarde, selaram um acordo que respondia às aspirações de ambos, sabiam o queriam fazer e para além de mais, um programador da turma de Miguel que não estava ali já tinha dado o seu ok. A equipa fundadora estava encontrada.

Sem grande surpresa, este seria também o início do fim do negócio das revistas porno que o Sr. Alípio vendia no pequeno quiosque ao pé da paragem do autocarro.