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– 20 – Ponte Vella

A viagem tinha sido bastante mais longa do que alguma vez pudesse imaginar. Tinha saído de casa antes das 5h30 da manhã, não tendo falhado a “boleia” para Vigo por um verdadeiro milagre.

Ao sair de casa, viu o dia hesitar entre a noite que tinha sido escura e a manhã que queria ser luminosa. Por um momento trevas e luz gladiaram-se para saber quem era o mais forte e, como não repararam em José, lá foi ele até à central de autocarros.

Tal como o espectáculo que tinha acabado de presenciar, também uma parte de si queria ficar porque tinha medo do que poderia acontecer.

Sabia que estava a desafiar o seu próprio destino e, quando assim é, sabemos que nos podemos magoar.

A outra parte não conseguia esperar por chegar. Era dia 2 de Janeiro do ano 2000 e o mundo ainda não tinha acabado de acordar da longa madrugada do dia anterior, com uma agravante: era segunda-feira e estava frio.

A poucos minutos da partida comprou o bilhete, instalou-se o melhor que conseguiu nos bancos traseiros e depois foram seis longas horas até Valença do Minho bem no extremo Norte de Portugal. 

Guiado por um impulso que o fazia simultaneamente tremer e sorrir de prazer, não tinha previsto tudo o que era necessário para chegar ao seu destino.

Quando o autocarro deixou os passageiros na estação de Valença, percebeu que tinha de atravessar a fronteira portuguesa a pé, tal como Maria lhe tinha dito meses antes. 

Foi caminhando pelas ruas de empedrado, perguntando direcções às poucas pessoas que passavam na rua, até começar a ouvir por detrás de uma fiada de árvores a corrente do rio, como se de um rugido de dragão se tratasse. 

Era necessário utilizar a velha ponte, ao que parece construída pelo mesmo senhor que espantaria o mundo em 1889 na Exposição Mundial de Paris com a famosa torre que acabou por ganhar fama com o seu próprio nome*.

Caminhava da mesma forma que milhares ou milhões de Minhotos e Galegos o fizeram durante séculos, unindo pelo pé e pelos seus contrabandos as duas margens que não se tocam. Olhou para baixo, para a torrente de água e pensou no que estava ali a fazer.

O seu corpo movia-se, atraído por algo que nunca tinha desejado tanto na sua vida, tinha apenas uma dúvida: se estava apaixonado por Maria ou pela ideia de estar apaixonado.

Voltou a olhar para a teimosia desse rio chamado Minho que corre ora depressa ora devagar em direcção ao Mar, não se importando com quem por cima passa, corre porque sabe para onde vai e quase teve uma ponta de inveja. 

Ao longe, na direcção do Oceano e já do lado espanhol, olhou para o Monte de Santa Tecla, que lhe parecia perguntar porque é que insistia em desafiar uma sorte que talvez não fosse a sua, sorriu e apressou o passo.

Nesse mesmo dia não terão sido muitas as pessoas que entraram em Tui caminhando por debaixo da linha do Comboio, o contrabando era hoje bem mais sofisticado.

Embora não soubesse exactamente onde estava, sabia que ao acompanhar as duas linhas negras, paralelas, por cima da sua cabeça acabaria por chegar a uma estação qualquer que o levaria até Santiago de Compostela, o destino da sua viagem que um destino maior teimava em afastar de si.

Mentalmente ia recordando o que tinha vivido dois meses antes na companhia do seu ainda sócio mas agora ex-amigo, Miguel.

* Alexandre Gustave Eiffel (December 15, 1832 – December 27, 1923; French: was a French structural engineer from the École Centrale Paris, an architect, an entrepreneur and a specialist of metallic structures. He is acclaimed for designing the world-famous Eiffel Tower, built 1887–1889 for the 1889 Universal Exposition in Paris, France.